Evento APDC

12.01
Outras iniciativas



APDC & VdA realizam Ciclo de Webinars sobre Digital

4ª Sessão | Digital Union: Economia dos Dados

A Europa tem uma estratégia clara para acelerar na economia de dados e posicionar-se globalmente. Mas há ainda muito caminho a percorrer e múltiplos desafios a endereçar. É que, na prática, as empresas ainda se defrontam com muitos entraves num processo, que ainda está a começar, de saber como usar os dados para inovar e criar valor para a economia e para a sociedade. Teme-se o excesso de regulamentação e o seu impacto na inovação, assim como os desequilíbrios a vários níveis que ainda se mantêm entre estados-membros.

"A economia dos dados é algo relativamente recente, que aconteceu de repente. Nos últimos tempos a quantidade de dados que é possível transformar em informação útil registou um boom, graças à disponibilização de tecnologia. É o novo petróleo", começou por destacar o Sócio Executivo do Grupo PI & Digital | Comunicações, Proteção de Dados & Tecnologia, da VdA, no arranque deste webinar, a 4ª sessão da Digital Union, uma parceria entre a APDC e a VdA.

Tendo a União Europeia (UE) como objetivo ser líder na economia mundial do dado, avançou com um conjunto de iniciativas nesse sentido. Mas, como destacou Fernando Resina da Silva, "o equilíbrio entre legislar e não legislar, deixando o mercado funcionar, é sempre muito complicado e delicado. Implica muitos riscos", de forma que a regulamentação não seja "um espartilho ao que a tecnologia permite".
A realidade é que, cada vez mais, é necessário ter "empresas mais bem preparadas, que conheçam as oportunidades e desafios que existem com os dados e o que são as políticas europeias neste domínio", acrescentou a Sócia Responsável da Área Comunicações, Proteção de Dados & Tecnologia, da VdA.

Magda Cocco, que apresentou a estratégia europeia para os dados, começou por destacar o que é a economia de dados, que abrange os dados pessoais e não pessoais, públicos, abertos e privados, deixando claro que, em conjunto com as ferramentas tecnologias de comunicação, armazenamento e analítica, permite modelos de negócio mais inovadores, novos produtos e serviços, novos processos e tomar decisões informadas. Os dados, são, para a jurista, "fundamentais para o tecido empresarial português, no apoio ao processo de decisão. Permitem políticas mais eficientes e precisas para resolver todos os desafios e são absolutamente core como detonador da IA e de políticas transformadoras, levando a novas oportunidades de crescimento".

Alertando também para as novas ameaças e os novos desafios levais e regulatórios, mostra-se convicta de que o potencial de crescimento dos dados na Europa é imenso - Bruxelas antecipa que o volume global de dados cresça dos 33 zettabytes registados em 2018 para 175 zetabytes em 2025. Acredita-se que com as políticas e os investimentos adequados, seja da CE, dos estados-membros e das empresas, a UE possa aproveitar as oportunidades associadas à mudança de paradigma de tornar-se líder nos dados. Sendo que as projeções apontam para que a economia de dados europeia alcance em 2025 os 550 mil milhões de euros, depois dos 355 mil milhões alcançados em 2020.

Mas os vários tipos de dados têm diferentes valores económicos para os vários setores e negócios, o que é relevante numa lógica de políticas e de regulação europeia. E o seu impacto, enquanto ativo, é também distinto, como destaca Magda Cocco, tendo em conta os direitos de propriedade e de utilização, a quantidade, os custos de processamento e quantidade e compliance dos dados.

Num ecossistema complexo como é o da economia de dados, que envolve várias entidades em áreas como a cibersegurança, proteção de dados, concorrência, de promoção de dados abertos e de concorrência, "muitas vezes não existe um entendimento claro dos seus players", desde os operadores de comunicações, que fornecem as redes de transporte, aos OTT e as suas plataformas, passando pelos agregadores, os utilizadores e pelos ciber-criminosos, cada vez mais sofisticados. Acresce um conjunto de detentores dos dados, assim como intermediários, cooperativas e organizações de dados para o bem comum.

ORIENTAR E REGULAMENTAR
Para responder a esta realidade, a Comissão Europeia (CE) tem como meta "criar uma economia europeia de dados, assumindo-se como uma referência e tendo um papel essencial ao nível mundial", acrescenta, explicando que para isso terá de dotar a região dos necessários instrumentos, seja de regulação ou de orientação. Assim, apresentou no final de 2020 uma estratégia para responder a vários desafios: fragmentação entre estados-membros, pouca disponibilidade dos dados, dados para o bem comum, assimetrias de poder, qualidade e interoperabilidade, governação, infraestruturas e tecnologias, capacitação das pessoas, literacia dos dados e cibersegurança.

Para a responsável da VdA, a estratégia definida - que assenta num quadro de governação transetorial, no investimento nos dados e no reforço das capacidades e infraestruturas, em espaços comuns de dados, em competências e numa abordagem internacional aberta e proativa - será um grande desafio para os próximos anos. Até porque o quadro legal já definido passa por todo um conjunto de diretivas e políticas, de âmbito transversal e setorial, que foram sento aprovadas. A que acrescem um conjunto adicional de diplomas, ainda em discussão, que trará "alterações muito impactantes para as empresas".

Neste cenário, o que podem as empresas fazer para beneficiar do potencial da economia dos dados? Magda Cocco enunciou um conjunto de questões, a começar pelo reconhecimento e valorização dos dados como um ativo, por fazer um levantamento dos dados e avaliar o seu potencial económico, desenhando modelos de exploração e parcerias, assim como os riscos e oportunidades. Depois, há que identificar o enquadramento legal e o posicionamento da organização na cadeia de valor e em termos regulatórios. Há ainda que definir medidas e processos para assegurar a compliance e garantir a segurança dos dados.

É que "se os dados são um ativo, podem também ser um ativo toxico em termos de geração de valor e de responsabilidades". Por isso, as empresas têm de saber introduzir um modelo de governance de dados e assegurar a capacitação, com uma "visão holística, tendo em conta o aproveitamento eficiente das políticas de dados abertos e dos espaços comuns de dados".

INCENTIVAR OU TRAVAR INOVAÇÃO?
A estratégia de Bruxelas é vista com otimismo pelos players do mercado, tendo em conta o enorme potencial dos dados na criação de valor para a economia e para a sociedade. Mas alertam para os enormes desafios que ainda persistem ao nível europeu e nacional, nomeadamente para o risco de se ter um quadro regulamentar demasiado extensivo, o que poderá travar a inovação e, por essa via, a competitividade do espaço comunitário num cenário mundial. Acrescem as desigualdades entre estados-membros.

Manuel Dias, National Technology Officer da Microsoft, não tem dúvidas que a Europa e Portugal têm um enorme potencial na utilização da informação. É preciso é perceber como obter valor económico dos dados, porque "o desenvolvimento económico e a partilha de informação dentro de Portugal e entre estados-membros é um fator crucial de competitividade. Acho muito interessante o que a Europa está a fazer. Não é apenas uma questão de tecnologia, mas de regulação e de segurança e privacidade de dados".

Tema fundamental para o gestor é também o da literacia e capacitação das pessoas, pois só assim se poderá criar valor económico, transparência, participação e colaboração dentro do ecossistema. Trata-se de um enorme desafio, num mercado onde existe um "gap enorme entre a informação que está disponível e a forma como é utilizada pelo setor público, pelas organizações, empresas e cidadãos".

Começando por destacar que "sem dados não existe inteligência", sendo que a economia dos dados é decisiva para determinar "vencedores e perdedores nos diferentes setores", sendo relevantes para a macro e a microeconomia, Pedro Machado, Country Senior Director e Data Protection Officer (DPO) do Grupo Ageas Portugal, refere o mais recente Global Risks Report 2022, do Fórum Económico Mundial. Onde um dos principais riscos apontados para Portugal é a desigualdade digital.

ACESSO FRATURADO AO MERCADO
Trata-se do "acesso fraturado a redes e serviços, em resultado de capacidades desiguais, falta de acesso, poder de compra insuficiente ou diferenças culturais", que existe noutros seis países. "A Europa é desigual e estamos numa linha bastante sensível", diz. E, tendo em conta a tendência de agravamento em áreas como os ciberataques, para obter ganhos financeiros com os dados, o gestor diz que terá de se fazer uma reflexão ao nível europeu, o que poderá levar a mais legislação e a pesados regimes sancionatórios.

Mas há que pensar nos efeitos do quadro regulamentar ao nível da competitividade, até porque as empresas mais valiosas do mundo são hoje as que dominam os dados, as big tech. Não tendo dúvidas de que haverá cada vez mais desafios entre a exploração de dados e o tema da privacidade, defende que "a disciplina do compliance tem que começar a fazer parte da estratégia de todas as organizações, que terão de deixar de funcionar por silos, com elevados custos, para um cenário de integração e de capacidade de informação. Só isso permitirá tratar grandes volumes de dados para um melhor suporte à decisão. Somos muito bons a restringir, mas muito dispersos na monetização dos dados."

Baseando-se na sua experiência profissional de inovação e conhecendo bem os mercados internacionais, Ricardo Rosa, Head of Innovation da Sonae Sierra, considera que "a Europa continua confusa no conjunto de conceitos em torno dos dados. Retirar valor dos dados de negócio e de eficiência é um campeonato. Os dados pessoais são outro. Quando os misturamos, dificulta tudo", havendo uma espécie de "esquizofrenia" na forma como a Europa olha para o tema, que "é muito real".

Para o gestor, "existe um nível bastante elevado em Portugal de literacia ao nível as elites, mas, em paralelo, uma cultura de dados muito difusa sobre o valor na tomada de decisão. Ainda temos caminho a andar, em geral", embora haja já um "acordar para esta área, que é muito visível ao nível das organizações, que não havia há uns anos".

Sobre os dados pessoais, Ricardo Rosa considera que há uma "diabolização" da sua utilização, quando "ninguém pensa em vender dados de qualquer cliente. É impensável". Mas, na prática, o que tem vindo a acontecer ao nível europeu, tendo em conta a forma como Bruxelas tem olhado para o tema, é uma crescente dificuldade em perceber "onde estão as áreas cinzentas onde nos poderemos mexer, dentro do que é criar valor para a empresas e para os clientes". O que trava a inovação, que é um dos objetivos da CE.

HARMONIZAÇÃO É VITAL
"No final, o investimento na gestão e tratamento de dados, retirando valor deles, é limitado, porque nunca se sabe bem o que é que se pode fazer e até onde se pode ir. Criou-se um terreno de difícil gestão, numa área onde a Europa quer ser líder, mas onde ainda não decidiu ainda o que quer fazer", explica, embora admita que "nem tudo é mau de todo".

Nomeadamente ao nível dos objetivos de harmonização na UE27, um caminho que considera ser "absolutamente crítico. Encontramos soluções de inovação que implementamos e temos que as escalar. E isso ainda é complexo, porque temos que olhar para as especificidades de cada país, colocadas em cima da legislação europeia. A situação está melhor, há uma direção correta, mas ainda temos caminho a andar na harmonização".

Neste período de debate, moderado por Tiago Bessa, Sócio da Área de Comunicações, Proteção de Dados & Tecnologia, PI Transacional, da VdA, e por Sandra Fazenda Almeida, Diretora Executiva da APDC, questionada sobre quais devem ser as principais preocupações de uma empresa num projeto concreto, Magda Cocco começou por destacar que se deve "olhar para os dados de uma forma holística e não projeto a projeto". Ainda assim, no desenho de cada projeto, a inovação terá de estar sempre alinhada com a regulamentação, num processo de permanente "colaboração interativa" entre as várias áreas.

Sendo a tecnologia um enabler, não será a estratégia da CE, de múltiplas regulamentações, um entrave, face a outras regiões que adotam menos regulação e promovem uma inovação mais rápida? Para o gestor da Microsoft, não se trata efetivamente de um problema de tecnologia, que efetivamente existe, mas de cultura, que "dá capacidade às pessoas e poder às equipas, o que fomenta claramente a inovação". Defendendo que a "cultura é fundamental, para que as pessoas olhem para a informação e tomem decisões com base nela, o grande desafio é incuti-la", promovendo-se ambientes de experimentação e de inovação.

"Capacitar as empresas e as pessoas para utilizar a informação e tomar decisões é o que vai criar valor económico e potenciar a inovação. Inteligência artificial, cibersegurança, dados abertos... são fundamentais. Para isso, precisamos de apostar na formação das pessoas. Esta economia de dados é fundamental para o crescimento económico e o o desenvolvimento em geral", remata.

Já num grupo de um setor tradicional como os seguros, a Ageas tem tido alguns desafios ao nível da integração tecnológica, tendo em conta o ecossistema grande e complexo de dados, assim como nos dados pessoais e nas obrigações de informação. "Os seguros têm tido uma viagem bastante longa. Reconhecemos que se esta viagem se não for feita, não conseguimos atingir os objetivos definidos. Há temas de natureza tecnológica, de literacia, de cultura, que são bastante complexos", explica Pedro Machado.

Enquanto DPO, o seu papel é de "promotor de uma mudança de cultura e pensamento. Não ficar apenas a olhar para o que não se pode fazer, mas conseguir explicar às pessoas as vantagens". Trata-se de uma "evangelização, uma consciencialização para a mudança de mindset e de cultura".
Na atual conjuntura, o responsável da Sonae Sierra admite que ainda não é fácil monetizar os dados. "Estamos todos a apalpar terreno e a tentar encontrar a melhor forma de criar valor. Embora queira entender a forma como a CE vê a lógica de partilhar dados públicos, não é a que faz mais sentido. Temos é que melhorar a relação com os clientes e com isso trazer-lhes valor. É um caminho que está a ser feito e que não é fácil, porque é uma forma diferente de pensar e atuar, que tem a ver com a transição o digital". Concordando que "a maior dificuldade não é a tecnológica", Ricardo Rosa diz que "às vezes escalar é complicado. A tecnologia está lá, mas é difícil fazer em escala".


PROGRAMA


09h30
Boas Vindas

Fernando Resina da Silva - Sócio Executivo do Grupo PI & Digital | Comunicações, Proteção de Dados & Tecnologia, VdA
Sandra Fazenda Almeida - Diretora Executiva, APDC
  
09h35
Economia dos Dados - Apresentação
 Magda Cocco - Sócia Responsável da Área Comunicações, Proteção de Dados & Tecnologia, VdA 
  
09h50
Debate
 · Manuel Dias - National Technology Officer, Microsoft
·
 Pedro Machado - Country Senior Director | Data Protection Officer (DPO), Grupo Ageas Portugal
· Ricardo Rosa - Head of Innovation, Sonae Sierra

Moderação:
· Sandra Fazenda Almeida - Diretora Executiva, APDC
· Tiago Bessa - Sócio da Área de Comunicações, Proteção de Dados & Tecnologia, PI Transacional, VdA
  
10h45Encerramento


ORADORES 




SABIA QUE:

  • O volume de dados produzidos no mundo duplica a cada 18 meses, devendo passar de 33 zetabytes em 2018 para 175 zetabytes em 2025? 
  • A economia de dados na UE27 valia 301 mil milhões de euros em 2018 e que deverá alcançar os 829 mil milhões em 2025?
  • Cerca de 80% do tratamento de dados ainda é hoje feito de forma centralizada e que apenas há 20% em objetos inteligentes conectados e em instalações de computação próximas do utilizador, devendo estas percentagens inverter-se até 2025? 
  • A Bruxelas pretende investir entre 4 mil a 6 mil milhões de euros na criação de "espaços de dados" e numa infraestrutura de serviços de cloud europeia nos próximos anos?
  • Os dados são um ativo sujeito a um quadro regulatório que vai muito para além do tão falado Regulamento Geral de Proteção de Dados?
  • A economia dos dados é vista como uma das bases do desenvolvimento económico e da competitividade europeia e que a Comissão Europeia já apresentou a sua visão para a Estratégia de Dados Europeia, que inclui várias propostas legislativas, como a Data Governance Act (DGA) e o Cloud Rulebook?

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