A Europa é hoje um continente em risco de perder o seu lugar no Mundo. Só uma estratégia que garanta, e depressa, uma UE27 mais unida e ágil, é que permitirá que sejam garantidas as ‘armas' para enfrentar os atuais desafios geopolíticos e económicos globais. Porque o mundo está a mudar a alta velocidade e o continente europeu, apesar de todos os diagnósticos e das medidas entretanto anunciadas, está a demorar demasiado tempo a reagir. Tal como todos os seus estados-membros, incluindo Portugal. Há um reconhecimento generalizado da necessidade de maior integração, agilidade e simplificação regulatória, pois só assim se garantirá a competitividade e a soberania no cenário global. No entanto, a vontade política e a capacidade de superar a burocracia e a fragmentação continuam a ser os maiores desafios para transformar a ambição em ação concreta.
Estas foram as principais mensagens do Digital Business Breakfast APDC, em parceria com a Google, sobre "A Competitividade da Europa: um ano após Draghi". Como alertou o presidente da APDC, na abertura deste evento, "a Europa é hoje um dos poucos lugares onde os valores da democracia, da diversidade e dos direitos humanos ainda prevalecem. Mas sem uma economia saudável, sem competitividade e inovação, esses valores não se sustentam". Para Rogério Carapuça, é preciso agir com urgência e garantir que o setor digital é "um negócio saudável, regulado, inovador e rentável", essencial para o equilíbrio do modelo europeu.
Esta ideia de urgência foi reforçada por Filipa Brigola, Public Policy Manager na Google Portugal, que defendeu ainda a necessidade de Portugal elevar a sua voz no contexto europeu. Estudos da Google mostram que a IA pode gerar um aumento de mais de 1,2 mil milhões no PIB da UE, com Portugal a registar ganhos potenciais de 8% no PIB nacional. Mas alerta para a lacuna entre a ambição e a velocidade de ação da União Europeia, citando a fragmentação do mercado único e a complexidade regulatória como os principais entraves.
"Há dados que sugerem que 83% das empresas chinesas já utilizam IA, quando na Europa a percentagem se fica pelos 14%," exemplificou, apontando para a urgência de simplificação regulatória, com destaque para "Digital Omnibus", o pacote de medidas da UE para simplificar a legislação digital, reduzir a burocracia para empresas, especialmente PME, e harmonizar regras em áreas como dados, cibersegurança e IA. Só assim se conseguirá atrair e reter investimento e inovação. Mas este programa terá de ser "mais do que um mero exercício administrativo: uma oportunidade para transformar a regulação num fator de inovação e liderança global".
No debate que se seguiu, ficou claro que a Europa se divide hoje entre a convicção e a hesitação. Tem meios, talento e ambição, mas falta-lhe ação, ritmo e velocidade. Um ano após a apresentação do relatório de Mário Draghi sobre o futuro da competitividade europeia, que foi encomendado pela Comissão Europeia, a opinião dos intervenientes foi unânime: a Europa precisa de acelerar e Portugal deve assumir o seu papel ativo, deixando de ser um espectador e tornando-se num agente ativo de transformação.
É que o diagnóstico, os instrumentos e até a capacidade financeira existem, como garantiu Sofia Moreira de Sousa, representante da Comissão Europeia em Portugal. Mas o salto em frente, para a concretização, depende da coragem e da vontade política para agir: de Bruxelas e dos estados-membros. Defendendo que "a soberania nacional, tal como a concebemos hoje, já não existe", e que apenas uma Europa mais integrada conseguirá "proteger os seus valores e afirmar-se como parceiro global fiável", considera que "precisamos de mais Europa, de maior uniformização e de uma verdadeira união bancária e fiscal", lembrando que "a lentidão do processo europeu já não é compatível com a velocidade do mundo".
Para a representante de Bruxelas em Portugal, "a União Europeia é um parceiro que é fiável. Nós, quando nos comprometemos, seja um acordo comercial, seja um tipo de relação que demora tempo, as negociações... depois das coisas estarem, do acordo estar feito, de estar assinado, nós não mudamos as regras do jogo no último momento. E isto tem um valor, tem um valor na economia, tem um valor na confiança mundial", referiu, reconhecendo, contudo, a lentidão dos processos europeus.
MORTE LENTA OU SALTO EM FRENTE?
Mais enfático e direto, Pedro Siza Vieira assegura: "a Europa precisa de um salto político ou arrisca a morte lenta". O ex-ministro e atual sócio da PLMJ foi incisivo ao afirmar que "nenhum país europeu, nem mesmo a Alemanha, é suficientemente grande para fazer face aos desafios e às ameaças que pendem deste rearranjo global sobre as nossas populações". Recordando que "a Europa prosperou enquanto dominava a tecnologia que o mundo queria, mas perdeu essa vantagem", assegura que "continuarmos presos à burocracia e à fragmentação significa uma agonia lenta".
Assim, defendeu "novos mecanismos de decisão, mais integração e mais recursos comuns". O caminho terá de passar, inevitavelmente, por uma maior integração europeia, com novos mecanismos de decisão e mais recursos centralizados, para evitar que os Estados europeus se tornem "Estados vassalos", dependentes de quem define as regras fora da Europa.
Para Portugal, esta integração é "absolutamente crítica", pois o crescimento do país depende da sua abertura ao exterior e das exportações. No país, criticou a burocracia interna e a complexidade regulatória, que inibem o investimento e a agilidade necessária. "O interesse nacional é mais a Europa, é uma Europa que se mexe a mais depressa e um Portugal que aproveita as oportunidades," concluiu.
O nosso país terá mesmo de saber como "superar o seu complexo de inferioridade", acrescentou Miguel Costa Matos, Deputado à Assembleia da República e Coordenador da Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública pelo PS. "A nossa economia tem condições únicas para liderar na cibersegurança, criptoeconomia e energia limpa, mas a burocracia e os bloqueios institucionais travam o país", considerou, apontando para a necessidade de "atrair investimento produtivo, melhorar as redes energéticas e apostar em políticas salariais de choque".
Lembrou ainda que "só um país que valoriza o talento pode competir numa Europa que quer reter o seu próprio capital humano". E, embora Portugal tenha registado uma redução da emigração e um crescimento económico, a "fuga de cérebros" continua a ser um desafio. Aqui, o desafio é como Portugal pode competir com o mercado europeu para reter os seus jovens e como a Europa pode reter o talento que cria, face à atração de países como os EUA ou o Reino Unido.
Criticou também a falta de ambição orçamental da Comissão Europeia, que propôs o mesmo orçamento para os próximos 7 anos, apesar dos crescentes desafios. "Se não houver, pelo menos a CE, que deveria ser a campeã da integração europeia para colocar a fasquia cá em cima, bom, então aí é que nunca vamos superar a fasquia", advertiu.
Na reta final, Sofia Moreira de Sousa defendeu que "simplificar não é desregular". E que a Europa deve continuar a proteger os seus cidadãos e os seus valores, mas também "apostar no que é europeu", desde a indústria aeronáutica à tecnológica.
Já Siza Vieira foi mais direto: "levámos o Estado de Direito tão longe que o Estado deixou de conseguir decidir". E deixou o alerta: "ser fiel aos valores europeus implica coragem para mudar. Dentro da Europa e dentro de cada país. O interesse nacional é mais Europa, uma Europa que se mexa mais depressa, e um Portugal que aproveite as oportunidades."
O debate veio confirmar uma Europa entre a convicção e a hesitação: com meios, talento e ambição, mas sem ritmo. Um ano após Draghi, a mensagem é unânime - a Europa precisa de acelerar e Portugal deve assumir o seu papel ativo, deixando de ser um "espectador" e tornando-se um agente de transformação.
PROGRAMA
| 09:00 | SESSÃO DE ABERTURA E BOAS-VINDAS | |
| - Rogério Carapuça - Presidente, APDC - Filipa Brigola - Government Affairs and Public Policy, Google | ||
| 09:10 | KEEPING EUROPE COMPETITIVE: ONE YEAR AFTER DRAGHI | |
- Miguel Costa Matos - Deputado à Assembleia da República e Coordenador da Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública pelo PS Moderação: Maria Castello Branco - Comentadora política na CNN Portugal e cronista do Expresso. | ||
| 10:30 | CLOSING REMARKS |
Evento coorganizado pela APDC e Agarrados à Net, com a Google