A transformação digital do Estado "não depende da tecnologia, mas do talento, confiança e cooperação". Hoje, o principal obstáculo à adoção da IA na Administração Pública é organizacional e institucional, não tecnológico. "A IA não falha por falta de algoritmo. Falha por falta de coordenação" e o caminho passa por uma maior articulação entre Estado, empresas e academia.
O diagnóstico foi feito pela Diretora Geral da APDC, Sandra Fazenda Almeida, numa intervenção no AI Summit da Administração Pública, promovido pelo Instituto Nacional de Administração (INA). O encontro, dedicado à aplicação da Inteligência Artificial no setor público, reuniu responsáveis governamentais, especialistas e representantes do ecossistema tecnológico para debater riscos, desafios regulatórios e modelos de adoção.
Com o mote "A Sociedade Civil como Parceira da Transformação Digital do Estado", a responsável da APDC recordou o Programa UPskill como exemplo de "arquitetura de confiança" entre Estado, universidades e empresas, sublinhando que a transformação exige cooperação estruturada e partilha de risco.
Destacou ainda o papel da sociedade civil organizada na preparação de propostas estruturais, referindo o documento apresentado pela APDC aos partidos políticos em 2024, com medidas como a criação de um CIO do Estado, a adoção do princípio once-only e o reforço da governação digital integrada.
No contexto da Administração Pública, defendeu que a IA requer capacidade técnica, governação clara, talento qualificado e confiança social. Mas estes elementos não emergem isoladamente dentro da máquina pública, dependendo de um diálogo permanente com o setor tecnológico. Acresce que a maturidade institucional acelera quando o Estado aprende com exemplos concretos, pelo que se de verão valorizar espaços de partilha entre municípios, empresas e entidades públicas.
Na sua intervenção, abordou ainda uma dimensão menos discutida da IA: a infraestrutura. Alertando para a subida dos custos de hardware e semicondutores, o aumento do preço de servidores e serviços cloud e a dependência europeia de fornecedores externos, defende que a volatilidade dos preços tecnológicos cria tensões com o modelo tradicional de contratação pública, concebido para contextos de estabilidade.
Para a Diretora Geral da APDC, a adoção de IA no Estado implica modelos de contratação mais ágeis, infraestruturas partilhadas e visão de soberania tecnológica. Com flexibilidade e mecanismos de partilha de risco.
Em conclusão, a transformação digital do Estado "é demasiado importante para ser deixada apenas ao Estado e demasiado estrutural para ser deixada apenas ao mercado", defendendo um modelo colaborativo em que a sociedade civil organizada atua como infraestrutura de suporte à modernização institucional.
https://www.ina.pt/blog/eventos/ai-summit-ap/