No 10º episódio de Como era o Futuro, Rogério Carapuça conversa com João Mello Franco, uma das figuras centrais na transformação das telecomunicações portuguesas nas décadas de 80 e 90.
A conversa começa pela origem fragmentada de um setor que estava totalmente nas mãos do Estado. "É preciso ver que há razões históricas", explica, recordando que os TLP nasceram como Anglo-Portuguese Telephone Company, em 1887, limitados a "30 quilómetros ao redor do centro de Lisboa e 20 ao redor do Porto". A divisão entre Lisboa/Porto e o resto do país não era estratégica, mas sim uma herança do século XIX.
Quando assume a liderança dos TLP, encontra uma empresa parada: "A entrega de um telefone ao assinante era quase um ano, em média." Ao mesmo tempo, a banca já exigia transmissão de dados e rapidez, pelo que a resposta foi estrutural: Foi necessário alterar completamente o sistema de funcionamento" informatizar processos e segmentar clientes. O objetivo era claro: "Virar uma empresa exclusivamente de assinantes para uma perspetiva de clientes."
O momento decisivo surge com as telecomunicações móveis. Em pleno processo de liberalização, o Governo impõe uma condição: "Damos-vos uma licença sem concurso, desde que os três operadores públicos se juntem". Assim, CTT, TLP e Marconi unem-se num projeto comum: nasce a TMN, que começou de imediato a disponibilizar comunicações via GSM. Porque "um mercado concorrencial exigia visão e rapidez".
Com os TLP com as comunicações de Lisboa e Porto e os CTT com o resto do país, a Marconi trazia outra dimensão: cabos submarinos, satélites e internacionalização. "Tinha um know-how das telecomunicações internacionais, que foi importante para a futura PT", sublinha, lembrando a expansão para África e Brasil. Destaca ainda a reforma tarifária, feita com base académica: "Analisar os investimentos, custos e receitas" foi, diz, uma aprendizagem para todos.
O episódio culmina com a preparação do IPO (Initial Public Offering) da Portugal Telecom, depois de concluída a reorganização as empresas do Estado. Os bancos defendiam a entrada de um parceiro estratégico, mas a conclusão surpreendeu: "Verificaram que estávamos up-to-date em praticamente tudo. Não nos vinham ensinar absolutamente nada". Pelo que a opção foi abrir o capital da nova empresa ao mercado.
Mais do que memória, este episódio revela a transição de um modelo administrativo para um setor competitivo, tecnológico e global, No momento exato em que o futuro começou a acontecer.
Um episódio que revela como João Mello Franco e os TLP CTT e Marconi transformaram um setor fragmentado numa base sólida para um mercado moderno e competitivo no país.