O digital parece cada vez mais imaterial, mas continua dependente de infraestruturas físicas, regras sólidas e da capacidade crítica. Redes, cabos, energia, engenharia, regulação e conhecimento continuam a ser a base invisível de um mundo onde comunicação, informação e tecnologia se tornaram inseparáveis.
É a partir desta ideia que se desenvolve a conversa com José Amado da Silva, ex-presidente da ANACOM e atual reitor da Universidade Autónoma de Lisboa, em mais um episódio do "Como era o Futuro", conduzido por Rogério Carapuça, presidente da APDC.
A conversa cruza a experiência da regulação das comunicações com os desafios atuais da transformação digital. José Amado da Silva recorda um período em que o setor passou dos serviços tradicionais para um ecossistema mais complexo, marcado pela internet, os telemóveis, a convergência digital e novas exigências de supervisão.
Para o ex-líder da ANACOM, a independência não define, por si só, um regulador. É antes uma condição para garantir imparcialidade. O essencial está na capacidade de proximidade, reflexão informada e decisão imparcial. Sobretudo num mercado em que tecnologia, plataformas e infraestruturas estão cada vez mais interligadas.
É ainda abordado o impacto da inteligência artificial no ensino e na sociedade. Para José Amado da Silva, a IA não tem necessariamente de reduzir o espírito crítico. Pode até reforçá-lo, se for usada como instrumento para questionar, validar e analisar. É que o problema não está apenas na tecnologia, mas na forma como a usamos, regulamos e compreendemos.
Num dos momentos desta conversa, recupera uma frase atribuída a Sócrates: "A sabedoria começa pela exata definição dos termos." Num tempo de respostas rápidas, automatismos e conceitos usados de forma pouco rigorosa, pensar bem continua a exigir método, precisão e sentido crítico.
Mais do que uma conversa sobre regulação ou inteligência artificial, este episódio é uma reflexão sobre responsabilidade, conhecimento e capacidade de decisão no mundo digital.