No 9.º episódio de Como era o Futuro, Rogério Carapuça conversa com José Saraiva Mendes, uma das figuras centrais na modernização das telecomunicações portuguesa. O seu percurso cruza academia, indústria, gestão internacional e regulação: da Marconi à Portugal Telecom Internacional, da Alcatel Portugal à ANACOM, passando ainda pela liderança em organismos internacionais.
A conversa começa por desmontar um equívoco comum sobre conectividade global. "As pessoas pensam que é o satélite, mas não é. É o cabo submarino", diz Saraiva Mendes, recordando que são cabos que sustentam as grandes ligações intercontinentais e garantem a maior parte do tráfego global de dados. Uma atividade estratégica que, historicamente, sempre esteve fora do âmbito das redes nacionais tradicionais.
Ao revisitar a evolução tecnológica, descreve a transição dos cabos telegráficos - baseados em Morse e retransmissões manuais - para os cabos coaxiais com repetidores, e depois para a fibra ótica, onde o paradigma muda radicalmente: "Já não falamos de circuitos, falamos de fluxos."
A capacidade deixou de ser medida em milhares de canais e passou a medir-se em volumes massivos de dados. Com a privatização dos operadores históricos e a entrada de novos atores globais, o modelo de governação destes sistemas também se transformou.
Quanto aos satélites, a sua análise é técnica e objetiva. "Primeiro são rádio", diz. As limitações de espectro, a latência associada às órbitas geoestacionárias e a complexidade das novas constelações de baixa altitude - como as da Intelsat, Starlink ou Iridium Communications - mantêm diferenças estruturais face à capacidade e estabilidade oferecidas pelos cabos submarinos.
Mas este episódio não é apenas sobre tecnologia. É sobre organização, liderança e autonomia estratégica. Ao recordar a sua passagem pela Marconi, Saraiva Mendes explica como decidiu recrutar os seus melhores alunos e criar uma equipa autónoma dentro da empresa - "o que hoje se chamaria uma startup" - para acelerar a inovação num setor crítico. Num contexto marcado por pressões políticas e interesses institucionais cruzados, a resposta foi técnica: "A força da engenharia, numa tecnologia complexa, sobrepôs-se aos jogos de interesses."
Portugal partia de uma realidade paradoxal. "As telecomunicações eram atrasadas em número", reconhece, mas "não eram atrasadas em estrutura e em tecnologia". A aposta na formação, impulsionada por reformas educativas e pela criação de massa crítica de engenheiros, permitiu consolidar competências internas e reduzir dependências externas. E essa base técnica foi determinante para construir uma rede que, décadas depois, se mantém ao nível das melhores infraestruturas internacionais.
A conversa percorre ainda o papel da indústria nacional, as relações entre operadores e fabricantes, os desafios da transição para o digital e a importância da despolitização institucional - incluindo a sua passagem pela APDC, onde defendeu uma associação técnica, independente e focada na competência.
Quase meio século depois, permanece uma ideia central: a infraestrutura digital é soberania. E a soberania constrói-se com conhecimento, visão e capacidade de execução.
Este é um episódio sobre decisões técnicas que moldaram o posicionamento internacional de Portugal e ajudaram a ligar o país ao mundo.