No 8.º episódio de Como era o Futuro, Rogério Carapuça conversa com Luís Todo Bom, figura central na reconfiguração das telecomunicações portuguesas e primeiro presidente da Portugal Telecom. O episódio revisita um dos momentos mais exigentes e estruturantes da modernização do setor.
No início dos anos 90, Portugal enfrentava um desafio estratégico: preparar-se para a liberalização europeia, num contexto marcado pela fragmentação organizacional do setor no país e pelo atraso tecnológico. A decisão foi clara: separar Correios e Telecomunicações, integrar operadores distintos e criar um grande operador nacional com escala suficiente para competir num mercado aberto.
Como sublinha Luís Todo Bom, o enquadramento era inequívoco: "Quem define as estratégias são os acionistas. Aos administradores cabe executar com rigor e transparência." A missão consistia em transformar uma estrutura dispersa numa empresa integrada, eficiente e preparada para o novo ambiente concorrencial.
E o processo foi intenso. Em apenas três anos - quando transformações semelhantes noutros países europeus demoraram quase uma década - concretizou-se a criação da Portugal Telecom. A integração de culturas organizacionais diferentes, a gestão de tensões laborais inevitáveis e a necessidade de assegurar continuidade operacional em serviços críticos tornaram esta fase particularmente exigente. Todo Bom descreve-a como "um processo muito duro e muito difícil".
Em paralelo, a modernização tecnológica tornou-se imperativa. Com apenas 72% das centrais digitalizadas e a liberalização do mercado à vista, foi necessário acelerar investimentos, renegociar contratos e concluir a digitalização total da rede antes da abertura à concorrência. Esta aceleração permitiu posicionar Portugal num patamar tecnológico competitivo à escala europeia.
Outro eixo estratégico foi a integração da Marconi, essencial para consolidar o tráfego internacional e reduzir preços excessivos, reforçando competitividade e coerência operacional. A lógica era clara: integrar para ganhar eficiência e escala. A realização da primeira fase de privatização acrescentou uma nova dimensão ao desafio.
A conversa aborda ainda o passo seguinte: a internacionalização. Para Luís Todo Bom, a consolidação interna foi também o ponto de partida para uma ambição maior, a de construir presença no Brasil, em África e noutros mercados, exportando capacidade de gestão e know-how técnico.
Hoje, manifesta reservas quanto à perda de um operador nacional de grande escala, defendendo que a dimensão internacional poderia ter sido aprofundada para reforçar a relevância global. Mas, apesar dessa reflexão crítica, deixa uma nota clara sobre o estado atual do setor: a qualidade tecnológica e de serviço permanece elevada e as telecomunicações não constituem um entrave ao desenvolvimento económico do país.
Este episódio oferece uma perspetiva rara sobre decisões estratégicas, liderança e execução, num período em que se redefiniu o setor das telecomunicações em Portugal. Decisões cujos efeitos continuam a moldar o mercado atual...