Como podem os media responder à mudança dos consumidores, à pressão das grandes plataformas digitais e ao impacto crescente da IA? Este foi o ponto de partida da conversa entre Pedro Madeira, Diretor da Minsait, e Luís Amorim, Diretor de Desenvolvimento Digital da MediaLivre, numa Live Talk realizada no âmbito do Congresso APDC.
Luís Amorim enquadrou os desafios atuais da indústria dos media, lembrando que o setor tem atravessado várias fases de transformação profunda. Primeiro, a passagem do papel para o digital. Depois, a transição para o mobile. Mais tarde, a ascensão das redes sociais. E, recentemente, a quebra do tráfego vindo dessas plataformas. Agora, surge uma nova transformação, com impacto não apenas no setor, mas na sociedade: a IA.
E se a publicidade continua a ser a principal fonte de rendimento da MediaLivre, o modelo tradicional está sob pressão. Luís Amorim referiu que a publicidade display digital tem vindo a perder valor, numa tendência que considera global e nacional. A esta pressão junta-se o peso das grandes plataformas tecnológicas, que concentram uma parte muito significativa do investimento digital.
Para responder a este contexto, a MediaLivre tem procurado diversificar fontes de receita. O branded content é uma das apostas mais relevantes e já representa uma parte importante da faturação. Está também a desenvolver áreas como assinaturas digitais, eventos, afiliação, e-commerce e outros modelos de negócio associados aos media.
A conversa abordou ainda a transformação do consumo de conteúdos. É que o consumidor está cada vez mais fragmentado, tanto nas preferências como nos momentos de consumo. Esta mudança obriga os grupos de media a repensar a forma como produzem, distribuem e adaptam os seus conteúdos.
Neste contexto, o paradigma está a mudar. Em vez de pensar primeiro num formato específico - como vídeo, texto ou áudio, a lógica passa por partir de um conteúdo e adaptá-lo às diferentes formas como o consumidor quer aceder à informação. O mesmo tema pode, assim, ser convertido em vídeo, artigo escrito, áudio, resumo ou outros formatos.
A personalização foi outro tema relevante. Luís Amorim reconheceu a sua importância, mas sublinhou que a MediaLivre mantém reservas quanto ao uso de algoritmos sem transparência. A personalização deve ser clara para o leitor, evitando reforçar enviesamentos ou criar experiências informativas que apenas confirmem aquilo que o utilizador já quer ver ou ouvir.
Na IA, a MediaLivre tem projetos e pilotos em curso, mas Luís Amorim foi claro quanto ao princípio editorial do grupo: "A IA nunca servirá para fazer jornalismo." A tecnologia é encarada como ferramenta de apoio ao trabalho dos jornalistas, nomeadamente na pesquisa de informação, investigação e identificação de diferentes pontos de vista, mas não como substituto da produção jornalística.
Entre os projetos tecnológicos em desenvolvimento, estão iniciativas orientadas para reduzir tarefas repetitivas e administrativas nas redações e noutras áreas da empresa. Está também a trabalhar em soluções para ouvir a audiência em tempo real, tanto nos sites como na televisão, reforçando a capacidade de compreender comportamentos e adaptar a oferta de conteúdos.
A conversa mostrou que o futuro dos media passa por um equilíbrio complexo: diversificar receitas, responder a audiências mais fragmentadas, usar tecnologia de forma responsável e preservar a confiança editorial. Num setor em transformação permanente, a inovação tecnológica surge como condição necessária, mas não suficiente. A capacidade de manter critérios editoriais claros e uma relação transparente com os leitores continuará a ser determinante.
Live Talk | Congresso APDC