A soberania digital exige mais capacidade própria, sem abdicar de uma internet aberta. A internet tornou-se uma infraestrutura crítica para o funcionamento da economia, dos serviços públicos e da sociedade, tornando urgente reforçar a resiliência das redes, reduzir as dependências estratégicas e aumentar a capacidade tecnológica da Europa. Mas esse caminho não passa por fechar a internet. Pelo contrário, a soberania digital constrói-se através do investimento em infraestruturas, competências e inovação, preservando o carácter aberto, global e interoperável da rede.
Esta foi uma das principais conclusões da sessão "Infraestrutura, Resiliência e Soberania Digital", que decorreu no âmbito da 14.ª edição da Iniciativa Portuguesa do Fórum da Governação da Internet (IGF Portugal), realizada a 30 de junho.
A sessão reuniu Ana Aguiar (ISOC PT), Ana Carla Sousa (MEO), Augusto Fragoso (ANACOM) e Luís Bernardino (Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais), cabendo a moderação a Sandra Fazenda Almeida, diretora-geral da APDC. As conclusões desta e das restantes sessões irão integrar as Mensagens de Lisboa, documento que será apresentado no Internet Governance Forum 2026.
Ao longo do debate, os participantes defenderam que a resiliência da internet depende de um ecossistema complexo, que inclui redes de comunicações, cabos submarinos, centros de dados, energia, cloud e pontos de troca de tráfego, sublinhando que estas infraestruturas devem ser encaradas de forma integrada e preparadas para responder a falhas cada vez mais complexas.
Foi igualmente destacado o potencial estratégico de Portugal, cuja localização geográfica, rede de cabos submarinos, capacidade crescente de acolher centros de dados e conhecimento técnico podem reforçar o papel do país como plataforma digital atlântica. Para isso, consideraram necessário definir e manter uma estratégia de longo prazo, assim como um investimento continuado e uma aposta consistente no desenvolvimento tecnológico e na qualificação de recursos humanos.
Outro dos temas centrais incidiu sobre a governação da internet. Os oradores defenderam a importância de preservar um modelo multistakeholder, envolvendo governos, reguladores, operadores, academia, comunidade técnica, empresas e sociedade civil. Considerando que os desafios colocados pela inteligência artificial, pela concentração tecnológica e pelo atual contexto geopolítico exigem uma cooperação cada vez mais estreita.
A14.ª edição da Iniciativa Portuguesa do Fórum da Governação da Internet reuniu representantes do setor público, privado, academia, comunidade técnica e sociedade civil para debater os principais desafios da governação digital. Além da sessão dedicada às infraestruturas digitais, o programa incluiu debates sobre inteligência artificial e direitos fundamentais, proteção das crianças e dos jovens no ambiente digital, desinformação e integridade da informação, competências digitais, confiança no espaço digital e o impacto da IA na governação da Internet, culminando com a apresentação das Mensagens de Lisboa de representantes dos vários setores da economia e sociedade.
Na sessão de abertura, a presidente executiva da MEO, Ana Figueiredo, defendeu que a governação digital deve acompanhar a velocidade da inovação tecnológica e alertou que não existe inteligência artificial robusta sem infraestruturas digitais igualmente robustas. Considerou que as redes, cabos submarinos, satélites e conectividade deixaram de ser apenas um suporte tecnológico para se afirmarem como infraestruturas críticas para a competitividade, a segurança e a soberania digital, defendendo que Portugal tem condições para assumir um papel mais influente na construção das regras da economia digital.
Já a presidente da ANACOM, Sandra Maximiano, sublinhou que a internet se tornou uma infraestrutura essencial da sociedade e que a sua governação deixou de ser uma questão exclusivamente técnica. Destacou a crescente complexidade do ecossistema digital, as novas responsabilidades atribuídas ao regulador em áreas como os serviços digitais, a inteligência artificial, a cibersegurança e os dados, bem como a importância estratégica dos cabos submarinos para a economia global. Defendeu ainda que o modelo multistakeholder continua a ser a melhor forma de responder aos desafios colocados pela transformação digital, envolvendo todos os atores relevantes na definição das políticas para a internet do futuro.
Mais informações em https://governacaointernet.pt/pt/evento_2026/