Evento APDC

12.12
Outras iniciativas



Patrocinador(es) Outras iniciativas

Executive Breakfast APDC com Capgemini

Inovação e Resiliência Digital: As Lições do Apagão

O apagão de 28 de abril foi mais do que uma falha energética: foi um alerta claro sobre a fragilidade de sistemas cada vez mais interligados. A resiliência do sistema elétrico europeu depende hoje, de forma crítica, da integração entre energia, tecnologia e comunicações. Prevenir situações semelhantes exige acelerar a adoção de inovação aplicada, reforçar a coordenação entre setores e assumir a resiliência como um ativo estratégico - tecnológico, económico e social.

Essa foi a principal conclusão do mais recente Executive Breakfast da APDC, realizado em parceria com a Capgemini, onde ficou claro que as soluções existem, mas o tempo para as implementar é cada vez mais curto. Num contexto de crescente complexidade, impulsionada pela transição energética e pela digitalização, ficou clara a necessidade de novas abordagens à gestão de risco, à regulação e ao papel da tecnologia na proteção das infraestruturas críticas.

Na abertura do encontro, Rogério Carapuça, presidente da APDC, sublinhou que o apagão veio confirmar algo que o setor já sabia, mas nem sempre priorizava: a tecnologia digital é hoje um pilar essencial da resiliência das infraestruturas críticas.

"Hoje temos mecanismos tecnológicos que podem ser utilizados em praticamente todas as áreas da nossa vida, mas sobretudo na resiliência das infraestruturas, em particular da rede elétrica. A tecnologia do setor digital pode ajudar a tornar as redes mais eficientes, mais seguras e mais preparadas para eventos extremos", destacou.

Na keynote "Velocity of Impact", Rodrigo Maia, Global Head of Research and Innovation da Capgemini Engineering, enquadrou o apagão como um exemplo claro do choque entre a velocidade da inovação tecnológica e a inércia natural de sistemas altamente regulados.

"A velocidade de impacto resulta da rota de colisão entre a inovação tecnológica e a velocidade a que traz novas coisas e o que é a génese da engenharia, a standartização, os processos e os sistemas em si e a velocidade a que a mudança acontece nesta área masi estruturada e organizada", destaca. Explicando que na realidade dos sistemas elétricos, "vemos que a rede europeia tem um universo de modernização à escala de uma década, com grandes projetos. E com um universo de investimento de cerca de 600 biliões de euros por ano para atingir os objetivos de modernização".

 

INOVAÇÃO VS INÉRCIA NATURAL

No apagão, foi a tecnologia que esteve, na sua ótica, nas causas, mas também nas soluções e na forma de resolver os desafios que surgiram. E que temas surgem, no balanço entre o que é a inovação e a inércia natural dos sistemas estabilizados? Para este responsável, terá de se saber como se conseguirá "assegurar a resiliência e a confiança nas tecnologias introduzidas". Sendo que a velocidade a que novas tecnologias surgem colocam desafios, tanto pela escala como pelo número de novas inovações a analisar, perceber e conseguir demonstrar, porque os processos de adoção têm um período muito mais alargado.

"É muito importante perceber não o hype da inovação, mas qual é a sua utilização prática e em que medida se conseguirão extrair os benefícios. Na IA já há muitas coisas que são benefícios, mas sem ter de ser a promessa acelerada de uma bala de prata que resolve todos os problemas. A incorporação de mecanismos de aprendizagem e de machine learning são já muito conhecidos e permitem extrair benefícios", acrescenta.

Defendendo que há ainda que saber equilibrar a liberdade de inovação com as regulações, quando o tema é incorporar novas tecnologias em sistemas altamente regulados. Sem perder o impacto o impacto da sustentabilidade na incorporação destas tecnologias, já que além destas serem um driver de economia e de eficiência, devem ter também a capacidade de garantir sistemas mais sustentáveis do ponto de vista ambiental.

Para Rodrigo Maia, o setor da energia tem hoje múltiplos desafios, desde a necessidade de modernização da rede ao tema do risco de cibersegurança, passando pelas elevadas escalas de investimento e seu retorno, assim como a explosão de dados e a sua exploração para criar valor. Assim como conseguir balancear expectativas cm a complexidade que se introduz no sistema com a sua modernização tecnológica.

Entre as recomendações da Capgemini para os clientes das áreas de engenharia estão o foco, porque é importante não ficar desestabilizado pela velocidade da inovação. E perceber que há um benefício acrescido em muitas tecnologias, que aumentam o potencial do qua engenharia é capaz de produzir, a denominada ‘Augmented Engineering', que se traduz na forma como se incorporam a IA e outras formas de utilização de conhecimento.

Envolver formas mais ágeis e interativas de colaboração, assim como colocar a IA e a sustentabilidade como elementos fulcrais de qualquer estratégia de desenvolvimento são também essenciais. Assim como "trabalhar em conjunto e funcionar em ecossistema, que é fundamental para conseguir estes objetivos".

 

VISÕES DE HOJE E DO FUTURO

No debate que se seguiu, moderado por Sandra Fazenda Almeida, diretora executiva da APDC, ficou claro entre os oradores da REN, da EDP Inovação e da Capgemini uma constatação: a transição energética e digital torna os sistemas mais complexos, mas também oferece ferramentas inéditas para os tornar mais robustos. E a IA surge não como solução milagrosa, mas como um acelerador de decisão e eficiência operacional do setor elétrico.

Moderado por Sandra Fazenda Almeida, diretora executiva da APDC, o painel deixou claro que a complexidade crescente dos sistemas elétricos, impulsionada pela transição energética e pela digitalização, exige novas abordagens à gestão de risco, à regulação e ao papel da tecnologia.

Bruno Marçalo Nunes, Head of System Management da REN, começou por desmontar uma perceção comum: a de que o apagão foi resultado de uma falha isolada. Pelo contrário, explicou que o sistema elétrico é uma máquina de equilíbrio permanente, onde produção e consumo têm de coincidir em tempo real. "O sistema elétrico é a maior e mais complexa máquina que existe. Quando ligamos uma luz, alguém tem de estar a produzir essa energia naquele instante", sublinhou.

Segundo o responsável da REN, o incidente ocorreu em apenas quatro segundos, período em que apenas os sistemas automáticos podem atuar. A perturbação inicial, ocorrida no sul de Espanha, desencadeou um efeito em cascata relacionado com a tensão e não com a frequência, como inicialmente foi avançado em algumas análises públicas. "Em quatro segundos, era impossível parar o sistema. E se acontecesse outra vez, cairia outra vez", deixou claro.

O gestor garante que os planos automáticos de defesa funcionaram de acordo com o desenhado, mas que a escalada da tensão levou ao disparo sucessivo de proteções. Já a recuperação exigiu a ativação de centrais com capacidade de blackstart e uma gestão extremamente delicada da reposição faseada da rede. Aqui, "o treino das equipas foi absolutamente determinante. Se não treinássemos estes cenários, não teríamos conseguido responder."

Do lado da EDP Inovação, o seu CEO, António Coutinho trouxe uma visão sistémica e transversal, reforçando que o apagão expôs a forte interdependência entre setores críticos - energia, telecomunicações, água, combustíveis e mobilidade. Para o gestor "quando um sistema falha, os outros falham em cascata. Não é apenas um problema da rede elétrica."

Um dos pontos mais críticos destacados foi a fragilidade das comunicações e da autonomia energética de infraestruturas críticas, incluindo postos de abastecimento de combustível, semáforos e sistemas de transporte: "tínhamos combustível, mas não conseguíamos tirar o combustível. Isto é um problema sério quando pensamos em ambulâncias, equipas técnicas e serviços essenciais".

Alertou ainda um desafio estrutural que vai além de eventos raros: o envelhecimento da infraestrutura elétrica e a escala do investimento necessário. "Em 2030, 50% dos transformadores em Portugal terão mais de 30 anos. Na Europa, 40% têm mais de 40 anos."

Para o responsável da EDP Inovação, a resiliência tem um custo inevitável e a sociedade ainda não interiorizou totalmente essa realidade. "As pessoas dizem que não querem pagar pela resiliência. Mas a resiliência é essencial para garantir o funcionamento da sociedade. Aqui, a política tem de assumir um papel claro".

Rodrigo Maia, da Capgemini Engineering, enquadrou o debate num plano mais tecnológico e estratégico, reiterando o alerta para o desfasamento entre a rapidez da inovação digital e a velocidade de adaptação de sistemas altamente regulados. "Existe um desfasamento real entre a velocidade da inovação tecnológica e a inércia dos sistemas. Não é perigoso por si só, mas tem de ser gerido", destacou.

Defendendo que a tecnologia necessária para reforçar a resiliência já existe, defende que é preciso criar espaço para experimentação controlada, recorrendo a simulação avançada e gémeos digitais. É que a "digitalização permite replicar o comportamento físico dos sistemas em ambientes virtuais e testar cenários que seriam impossíveis no mundo real".

Sobre inteligência artificial, Rodrigo Maia foi claro: não se trata de substituir decisões humanas, mas de apoiar a antecipação e a geração de cenários: "a IA é extremamente útil para propor cenários de resposta. Mas essas propostas têm de ser sempre balizadas por modelos físicos e elétricos."

O debate revelou ainda um consenso em torno de um novo desafio operacional: a explosão de pequenos produtores, a autoprodução e a descentralização da geração. Como explicou Bruno Marçalo Nunes, "em 2000 tínhamos cerca de 250 centrais. Hoje temos mais de 60 mil". Um novo contexto exige níveis muito superiores de observabilidade, estimativa e controlo em tempo real, sendo a tecnologia e a automação indispensáveis: "há decisões que têm de ser tomadas em segundos. Aí não pode ser uma pessoa, tem de ser uma máquina", acrescentou.

Tanto a REN como EDP alertaram para a necessidade de mais literacia técnica entre os novos players do sistema energético, muitos dos quais não têm plena consciência do impacto operacional dos ativos que gerem.

Na fase final do debate, as comunicações emergiram como um dos pontos mais sensíveis. Apesar de serem essenciais à operação, à coordenação e à informação da população, não estão classificadas como infraestrutura crítica ao mesmo nível da energia. Só que "garantir comunicações resilientes é garantir confiança social", sublinhou Rodrigo Maia.

O painel convergiu na ideia de que a transição energética e digital só será sustentável se energia, tecnologia e comunicações forem pensadas como um ecossistema único, com regras claras, investimento estruturado e responsabilidades partilhadas.

 

 

Aceda ao estudo Cagemini - The engineering leader's innovation mandate

 

PROGRAMA

09h00Pequeno-almoço
  
09h30 Boas-vindas
 · Rogério Carapuça - Presidente, APDC
  
09h35 Velocity of Impact 
 · Rodrigo Maia - Global Head of Research and Innovation, Capgemini Engineering
  
09h45 Debate
 · António Coutinho - CEO, EDP Inovação - Lições do apagão
· Bruno Marçalo Nunes - Head of System Management, REN
· Rodrigo Maia - Global Head of Research and Innovation, Capgemini Engineering - apresentação

Moderação: Sandra Fazenda Almeida - Diretora Executiva, APDC
  
10h45 Encerramento

 

 

Programa