A Apple adquiriu a startup israelita Q.ai, num negócio avaliado em cerca de 2 mil milhões de dólares, numa altura em que a corrida global à inteligência artificial (IA) se intensifica e ganha uma forte componente de hardware inteligente. A informação foi avançada pela Reuters e confirmada pelo Financial Times.
Fundada em 2022, a Q.ai é especializada em imaging e machine learning, com foco em tecnologias que permitem aos dispositivos interpretar fala sussurrada, melhorar o áudio em ambientes ruidosos e captar sinais musculares subtis do rosto. Estas capacidades alinham-se diretamente com a estratégia recente da Apple de integrar IA de forma mais profunda nos seus dispositivos, em particular nos AirPods e no Vision Pro.
Nos últimos anos, a Apple tem vindo a introduzir novas funcionalidades de IA nos AirPods, incluindo tradução em tempo real, apresentada em 2025. As tecnologias da Q.ai deverão acelerar esta evolução, permitindo experiências de interação por voz mais naturais e melhorias significativas na captação e processamento de som em contextos complexos.
A startup desenvolveu ainda soluções capazes de detetar micro-movimentos faciais, uma área com potencial direto para o Vision Pro, abrindo caminho a interfaces mais avançadas, baseadas em gestos e expressões, com menor dependência de comandos físicos ou visuais. Este enfoque reforça a ambição da Apple em liderar a próxima fase da computação espacial, onde IA, sensores e experiência do utilizador convergem.
Esta é a segunda maior aquisição da história da Apple, apenas superada pela compra da Beats Electronics, em 2014, por 3 mil milhões de dólares. O negócio sinaliza uma mudança relevante na postura da big tech, tradicionalmente mais conservadora em aquisições de grande dimensão, num contexto de pressão competitiva crescente no domínio da IA.
O fundador e CEO da Q.ai, Aviad Maizels, volta assim a vender uma empresa à Apple. Em 2013, Maizels foi responsável pela venda da PrimeSense, cuja tecnologia esteve na base da transição da Apple para o Face ID no iPhone. Os cofundadores Yonatan Wexler e Avi Barliya também irão integrar a Apple, juntamente com a restante equipa.
A aquisição surge num momento em que Apple, Meta e Google intensificam o investimento em IA, não apenas ao nível do software, mas também na integração profunda com hardware proprietário. Enquanto alguns concorrentes apostam fortemente em grandes modelos de linguagem e infraestruturas massivas, a Apple continua a diferenciar-se pela IA no dispositivo, com foco em privacidade, eficiência energética e experiências integradas.
Com esta operação, a Apple sinaliza que pretende assumir um papel mais agressivo na próxima fase da IA - uma fase em que áudio, sensores, visão computacional e interação natural poderão ser tão determinantes como os próprios modelos algorítmicos.