A Altice International, dona da Altice Portugal, foi notificada por um grupo de credores de um alegado incumprimento de mais de dois mil milhões de euros em dívida. Segundo o Financial Times, a notificação foi enviada por credores que detêm, no conjunto, cerca de oito mil milhões de euros de dívida sénior da empresa, abrindo uma nova frente de tensão financeira no império de telecomunicações de Patrick Drahi.
Em causa estão, além do alegado incumprimento, várias transações realizadas pela Altice International que os credores consideram violar os termos dos contratos de financiamento. O grupo contesta os movimentos que terão retirado ativos relevantes do perímetro de garantias disponível, em caso de não pagamento da dívida.
A disputa está ligada a operações realizadas nos últimos meses pelo grupo de Patrick Drahi. Em novembro de 2025, a Altice International anunciou medidas destinadas a reforçar a liquidez e a flexibilidade financeira, incluindo uma revisão estratégica do portefólio de ativos. Na prática, estes movimentos envolveram alterações no perímetro de ativos, incluindo as operações em Portugal e nas Caraíbas, que passaram a ficar fora do alcance direto de determinados credores.
Os credores argumentam que estas transferências reduziram substancialmente o valor disponível para eventual recuperação da dívida. Segundo o Financial Times, uma das operações contestadas retirou ativos portugueses e dominicanos do conjunto de garantias, negócios que representavam uma parte muito significativa dos resultados da Altice International.
Outro ponto sensível está na relação com a Altice Luxembourg. As contas consolidadas da Altice International mostram que, no final de 2025, a empresa tinha valores a receber da Altice Luxembourg associados a empréstimos, adiantamentos, acordos de financiamento e juros acumulados no montante líquido de 4,59 mil milhões de euros, com valor bruto superior a cinco mil milhões de euros. A deterioração ou deslocação destes ativos é vista pelos credores como uma ameaça à sua posição.
A Altice International atravessa uma fase de forte pressão financeira. No final do primeiro trimestre de 2026, reportou uma dívida líquida efetiva de 8,92 mil milhões de euros, ou 8,27 mil milhões de euros em termos pro forma. O EBITDA trimestral foi de 79 milhões de euros, uma descida de 3,8% em termos homólogos numa base constante, enquanto o fluxo de caixa operacional livre ficou em 12 milhões de euros.
A notificação de incumprimento pode ser o primeiro passo de uma batalha jurídica prolongada entre a Altice International e os seus credores. Caso o alegado incumprimento seja confirmado e não resolvido, os credores poderão procurar acelerar o reembolso da dívida ou contestar judicialmente as transações que consideram prejudiciais aos seus direitos.
O grupo de Patrick Drahi tem vindo a vender ativos e a reestruturar a dívida, para reduzir o endividamento acumulado durante anos, que resultou de aquisições financiadas por dívida barata. Em França, a Altice acordou a venda da SFR a um consórcio formado por Bouygues Telecom, Free-iliad e Orange, num negócio avaliado em 20,35 mil milhões de euros, incluindo dívida. A operação está sujeita a aprovação regulatória e deverá ser analisada pela autoridade francesa da concorrência.
A venda da SFR é uma das maiores operações recentes no setor europeu das telecomunicações e poderá reduzir o mercado móvel francês de quatro para três operadores. Mas, para a Altice, o negócio tem também uma leitura financeira imediata: libertar capital, reduzir dívida e criar margem para enfrentar a pressão dos credores.
Para Portugal, o caso é particularmente relevante porque a Altice International controla a Altice Portugal, uma das principais empresas nacionais de telecomunicações. Até ao momento, a disputa é financeira e incide sobre a estrutura de dívida e garantias do grupo, não sobre a operação
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