O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou à criação de uma governação internacional para a inteligência artificial. Defende regras comuns, bem planeadas e inclusivas para evitar que uma das tecnologias mais poderosas da atualidade evolua sem controlo suficiente.
Na abertura do primeiro "Global Dialogue on Artificial Intelligence Governance", que decorreu em Genebra, alertou que a IA está a avançar a uma velocidade superior à capacidade de resposta dos reguladores, instituições e das próprias sociedades. Para Guterres, o mundo não deve escolher entre uma confiança cega na tecnologia e o medo da inovação, mas entre uma governação organizada e um rumo incerto.
"A escolha que temos pela frente não é entre uma confiança cega na IA e o medo da mesma. É entre uma governação bem planeada e organizada e um rumo incerto, entregue ao acaso", afirmou o secretário-geral da ONU, defendendo que o futuro da humanidade não pode ser decidido de forma improvisada.
Recorreu ainda à expressão "vibe-coding" para sublinhar o risco de deixar decisões estruturais à lógica da experimentação rápida e sem supervisão adequada. A criação de código por pessoas sem especialização técnica pode, disse, produzir resultados relevantes, mas não deve servir de metáfora para a forma como o mundo governa a IA.
O encontro de Genebra, que decorreu a 6 e 7 de julho, juntou governos, especialistas, organizações internacionais, sociedade civil e representantes do setor tecnológico, com o objetivo de criar uma base comum de discussão sobre os riscos, oportunidades e princípios de governação da IA. A iniciativa decorreu no quadro mais amplo do Pacto Digital Global das Nações Unidas e deverá ter continuidade com uma segunda sessão em Nova Iorque, em maio de 2027.
O secretário-geral da ONU defendeu que a IA tem potencial para acelerar descobertas científicas, melhorar serviços públicos, apoiar a saúde, transformar a educação e aumentar a produtividade. Mas alertou também para riscos sérios, incluindo manipulação da informação, interferência em eleições, concentração de poder tecnológico, ciberameaças, impactos no emprego, discriminação algorítmica e utilização da tecnologia em contextos militares.
Um dos pontos mais sensíveis é a proteção das crianças. Guterres apelou a regras mais fortes para impedir que menores sejam expostos a conteúdos prejudiciais, manipulação por sistemas de IA ou interações enganosas com ferramentas que simulam amizade, autoridade ou aconselhamento. A ONU quer promover compromissos específicos de segurança infantil antes da disponibilização de novas tecnologias.
Voltou também a defender que decisões letais não devem ser entregues a máquinas. A posição insere-se no debate internacional sobre armas autónomas e sobre a necessidade de manter controlo humano significativo em decisões de vida ou morte.
Sendo que a governação da IA tem ainda de evitar uma nova divisão digital global. O poder computacional, os modelos mais avançados e a capacidade de desenvolver IA continuam concentrados num número reduzido de países e empresas. Sem cooperação internacional, advertiu, muitos países em desenvolvimento poderão ficar excluídos dos benefícios da tecnologia, enquanto suportam parte dos seus riscos.
A ONU pretende que a regulação global da IA não seja definida apenas pelas grandes potências ou pelas empresas que desenvolvem os modelos mais avançados. A ambição passa por criar mecanismos multilaterais que permitam aos países participar na definição de princípios, normas e capacidades de supervisão.
O apelo surge numa altura em que a IA se tornou um dos principais temas da agenda internacional. Estados Unidos, União Europeia, China e outras jurisdições avançam com abordagens regulatórias diferentes, aumentando o risco de fragmentação. A ONU procura afirmar-se como espaço de coordenação global, capaz de aproximar posições e evitar que a governação da IA fique limitada a blocos geopolíticos ou interesses empresariais.
De Genebra ficou a mensagem: a IA pode servir a humanidade, mas apenas se for enquadrada por regras, instituições e responsabilidades comuns. Sem essa governação, como alerta Guterres, o mundo arrisca entregar uma parte decisiva do seu futuro a sistemas que evoluem mais depressa do que a capacidade coletiva para os compreender e controlar.
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