IA já gera ROI positivo nas empresas, mas governação continua atrasada

2026-07-15

As empresas globais estão a obter retornos cada vez mais positivos dos investimentos em inteligência artificial, mas continuam a enfrentar obstáculos relevantes em termos de dados, competências e governação. A conclusão é do novo Value of AI Report 2026, elaborado pela SAP e pela Oxford Economics, que mostra que a IA está a passar da fase de experimentação para uma fase mais orientada à execução e ao impacto no negócio.

De acordo com o estudo, que ouviu 2.600 líderes empresariais em 13 países, o investimento médio em IA por empresa subiu ligeiramente, para 28 milhões de dólares em 2026, face aos 26,7 milhões registados no ano anterior. Mas o retorno esperado cresceu de forma mais expressiva: as empresas antecipam um ROI médio de 21% este ano, equivalente a 6,3 milhões de dólares, acima dos 16% de 2025. Dentro de dois anos, esperam que esse retorno aumente para 38%, ou 15,9 milhões de dólares.

A IA agêntica surge como um dos principais motores desta expectativa. Os sistemas de IA capazes de agir autonomamente e executar tarefas orientadas para objetivos deverão gerar, em média, 17,6 milhões de dólares de retorno nos próximos dois anos, mais de quatro vezes acima dos 4,3 milhões estimados no ano passado. Para a SAP, este crescimento mostra que as empresas estão a começar a ver a IA não apenas como ferramenta de apoio, mas como capacidade operacional integrada nos processos.

"A IA passou da fase de experimentação para a fase de execução e tal está a começar a traduzir-se em retornos reais", afirma Sean Kask, Chief AI Strategy Officer da SAP. O responsável alerta, contudo, que sem contexto adequado ao nível dos processos, dados e governação, a IA pode gerar atividade sem criar valor e, nos casos mais críticos, introduzir riscos adicionais nas organizações.

O estudo mostra que a IA está a ganhar peso nas operações empresariais. Atualmente, 30% das tarefas realizadas nas empresas já são apoiadas por IA, percentagem que deverá subir para 48% nos próximos dois anos. Ainda assim, a adoção continua longe de estar plenamente estruturada. Embora o investimento estratégico em IA tenha praticamente duplicado face ao ano anterior, chegando a 17%, as abordagens fragmentadas continuam a ser as mais comuns, representando 41% dos casos.

A fragmentação reflete limitações internas. Menos de metade das empresas dispõe de um responsável dedicado à IA para liderar a adoção da tecnologia, apenas 52% têm estruturas claras para desenvolvimento de IA e só 41% contam com programas de formação sobre competências e riscos associados. Apesar disso, 69% das organizações dizem estar satisfeitas com o ROI atual dos investimentos em IA, embora mais de dois terços reconheçam que a tecnologia ainda não atingiu todo o seu potencial.

A IA agêntica concentra grande parte do otimismo. Mais de oito em cada dez empresas (83%), consideram que esta tecnologia tem potencial moderado a muito elevado para transformar as suas organizações. Mas a preparação é ainda reduzida: apenas 3% afirmam estar totalmente preparadas para a adoção de IA agêntica, enquanto a maioria admite estar apenas parcialmente preparada ou não preparada.

Os dados continuam a ser o principal obstáculo. Segundo o relatório, 73% das empresas enfrentam problemas associados a dados incompletos e 79% registam retrabalho, atrasos ou acumulação de tarefas devido à baixa qualidade dos resultados produzidos pela IA. A SAP sublinha que a qualidade, disponibilidade e contextualização dos dados são determinantes para transformar modelos e agentes em valor operacional.

A força de trabalho é outro ponto crítico. Quase oito em cada dez organizações (78%), admitem que os seus esforços de requalificação não acompanham a rápida evolução das ferramentas de IA. Apenas 1% dos inquiridos considera que a IA não terá impacto no planeamento da força de trabalho, mostrando que a tecnologia já está a alterar funções, competências e modelos de organização interna.

A utilização de soluções de IA não autorizadas pelas empresas, conhecida como shadow AI, continua também a aumentar. Segundo o estudo, 69% das organizações indicam que esta prática ocorre pelo menos ocasionalmente. O fenómeno cria riscos de segurança, proteção de dados, compliance e qualidade, mas é também sinal de que os colaboradores procuram ferramentas mais rápidas ou mais úteis do que as disponibilizadas pelas próprias empresas.

A governação surge como uma das maiores fragilidades. Apenas 12% das empresas afirmam que as suas competências, processos e estruturas estão totalmente preparados para governar a IA de forma eficaz. O problema torna-se mais sensível com a chegada dos agentes autónomos: 38% das empresas não têm processos de supervisão humana para fluxos de trabalho agênticos, 37% não dispõem de controlos de permissões e acessos para agentes e só 44% mantêm um registo dos agentes utilizados na organização.

Este desfasamento preocupa porque 69% das empresas reconhecem que a implementação de agentes de IA está a avançar mais depressa do que a sua capacidade de governação. A adoção da IA agêntica pode gerar ganhos relevantes de produtividade, mas também aumenta a necessidade de controlo sobre decisões automatizadas, acessos a sistemas, execução de tarefas, qualidade dos dados e responsabilidade por resultados.

Para a SAP, o futuro do valor gerado pela IA passa pelo conceito de Empresa Autónoma, assente na integração entre IA, dados, processos e pessoas. A ideia é que a tecnologia deixe de funcionar como camada isolada e passe a estar profundamente ligada aos sistemas que sustentam as operações empresariais.

 


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