IA pode ampliar desigualdades e pôr em risco ganhos de desenvolvimento

2025-12-04

A inteligência artificial (IA) pode desencadear uma "nova grande divergência" entre países, aumentando as desigualdades económicas, sociais e tecnológicas, se não for acompanhada por políticas fortes e inclusivas. O alerta é deixado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no relatório "A próxima grande divergência: porque a IA pode aumentar a desigualdade entre os países".

O documento sublinha que muitos países de baixo rendimento entram na transição digital em clara desvantagem, com infraestruturas frágeis, baixa literacia digital e fraca capacidade de governação tecnológica. Sem correções, os avanços em IA podem inverter a trajetória dos últimos 50 anos, durante os quais estas economias conseguiram reduzir, ainda que parcialmente, a distância em relação aos países mais desenvolvidos.

A Ásia e o Pacífico surgem como epicentro da adoção da IA, concentrando mais de metade dos utilizadores globais e reforçando rapidamente a sua capacidade de inovação. O PNUD estima que a tecnologia possa acrescentar até 2 pontos percentuais ao crescimento anual do PIB regional e aumentar em cerca de 5% a produtividade em setores como saúde e finanças, com impacto acumulado próximo de 1 bilião de dólares na próxima década nas economias da ASEAN.

Em paralelo, o relatório alerta para riscos crescentes de exclusão e automação, com impacto desproporcionado em mulheres e jovens. Os empregos ocupados por trabalhadoras têm quase o dobro da exposição à automação, e o emprego jovem está a cair em setores onde a IA ganha peso. No sul da Ásia, as mulheres continuam 40% menos propensas do que os homens a possuir um smartphone, enquanto comunidades rurais e indígenas permanecem sub-representadas nos dados que treinam sistemas de IA - o que aumenta o risco de viés e exclusão de serviços essenciais.

O PNUD sublinha que, apesar dos riscos, a IA já está a modernizar a governação e os serviços públicos, com exemplos como a plataforma Traffy Fondue, na Tailândia, que processou centenas de milhares de denúncias de cidadãos, acelerando a resposta das autoridades locais. Mas a regulação continua a ficar para trás: o organismo antecipa que, até 2027, mais de 40% das violações de dados associadas à IA poderão resultar do uso indevido de ferramentas generativas, se não forem criadas estruturas robustas de governação.

Para as Nações Unidas, a prioridade passa por garantir que a IA não se torna um novo fator de clivagem global, mas antes uma alavanca de desenvolvimento inclusivo. Isso implica investir em infraestruturas digitais, competências, regulamentação e proteção de dados - especialmente nos países e comunidades que hoje partem mais atrás na corrida tecnológica.


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