Kyndryl: empresas investem em IA, mas equipas continuam pouco preparadas

2026-07-02

As empresas estão a acelerar a adoção da inteligência artificial, mas muitas continuam sem preparar devidamente as pessoas, os processos e os modelos de governação necessários para transformar investimento em resultados. A conclusão é do segundo People Readiness Report da Kyndryl, que alerta para um desfasamento crescente entre a ambição das organizações e a sua capacidade real de executar estratégias de IA.
O estudo global, realizado junto de 1.100 líderes empresariais, mostra que a tecnologia está a entrar mais depressa nos processos de negócio, mas que os ganhos continuam aquém das expectativas. Segundo a Kyndryl, 57% das organizações dizem já ter a IA integrada em processos essenciais ou implementada de forma generalizada. Ainda assim, apenas 32% atingiram pelo menos um dos seus dois principais objetivos em IA e só 11% alcançaram ambos.
A leitura é clara: o sucesso da IA depende menos da tecnologia isolada e mais da capacidade das empresas para redesenhar o trabalho, requalificar equipas, gerir a mudança e criar mecanismos de governação robustos. A adoção da IA deixa, por isso, de ser apenas uma decisão tecnológica e passa a ser uma transformação organizacional.
O alerta surge numa altura em que o investimento continua a crescer. A Gartner estima que a despesa global com IA deverá atingir cerca de 2,5 biliões de dólares em 2026, mais 44% do que no ano anterior, apesar de muitas organizações ainda enfrentarem dificuldades em demonstrar retorno dos projetos. A consultora tem defendido que cortar equipas para libertar orçamento para IA não cria, por si só, valor de negócio. As empresas que obtêm melhores resultados são as que investem também em competências, novos papéis operacionais, supervisão humana e governação.
No relatório da Kyndryl, a preparação das equipas surge como um dos principais pontos críticos. Apenas 23% das organizações consideram os seus colaboradores totalmente preparados para a IA, menos seis pontos percentuais do que no ano anterior. Ao mesmo tempo, 79% dos líderes receiam que a evolução da tecnologia ultrapasse a capacidade de adaptação das equipas, dos modelos operacionais e das estruturas de governação.
O desafio torna-se mais visível com a chegada dos agentes autónomos de IA. De acordo com o estudo, 81% das organizações esperam que estes sistemas venham a tomar decisões com impacto no próximo ano. No entanto, apenas 25% dizem confiar plenamente em sistemas que operam sem supervisão humana. A diferença entre adoção e confiança mostra que a maturidade tecnológica não basta para garantir aceitação operacional.
A Kyndryl identifica um grupo de organizações mais avançadas, designadas como Pacesetters, que representam cerca de 9% da amostra. Estas empresas distinguem-se por terem redesenhado funções em torno da IA, criado mecanismos de gestão da mudança e preparado os colaboradores para trabalhar com a tecnologia. À medida que avançam nestas dimensões, desenvolvem também modelos de governação mais consistentes.
Os resultados são relevantes. Segundo o estudo, estas organizações têm cerca do dobro da probabilidade de já terem implementado integralmente as várias dimensões de governação avaliadas. Têm também 1,5 vezes mais probabilidade de gerar crescimento de receitas com IA e 1,6 vezes mais propensão para registar maior inovação em produtos e serviços.
A redefinição de funções já começou em muitas empresas. O relatório indica que 61% das organizações redefiniram papéis internos em função da IA e que 24% estão a criar cargos especificamente centrados na gestão desta tecnologia. Ainda assim, a falta de competências continua a pesar: 52% dos líderes afirmam que é cada vez mais difícil encontrar talento com as capacidades necessárias para executar a estratégia de IA.
A formação está a avançar, mas ainda de forma insuficiente. Cerca de um terço das organizações já implementou programas focados na colaboração entre pessoas e ferramentas de IA. Para a Kyndryl, esta dimensão será determinante para evitar que a tecnologia aumente a complexidade interna em vez de gerar eficiência, inovação e melhores decisões.
A governação é outro ponto frágil. Apenas 33% das organizações dizem ter políticas claras sobre que decisões a IA pode ou não tomar, enquanto só 27% utilizam registos e mecanismos de monitorização para todos os sistemas de IA. Esta falta de visibilidade torna mais difícil avaliar riscos, garantir responsabilização e criar confiança nos modelos usados pelas empresas.
A conclusão do relatório é que a próxima fase da IA será menos determinada pela velocidade de adoção e mais pela qualidade da preparação interna. As organizações que conseguirem alinhar tecnologia, pessoas, processos e governação estarão em melhores condições para transformar a IA em resultados concretos. As restantes correm o risco de aumentar o investimento sem resolver o verdadeiro bloqueio: a capacidade humana e organizacional para acompanhar a mudança.


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