A conectividade global depende de infraestruturas físicas que são vulneráveis e, muitas vezes, invisíveis para utilizadores e decisores. Por isso, proteger os cabos submarinos exige cooperação internacional, planeamento preventivo, diversidade de rotas, licenciamento mais ágil e mecanismos de resposta rápida. Nesse sentido, o International Advisory Body on Submarine Cable Resilience aprovou um relatório final com recomendações para reforçar a resiliência dos cabos submarinos de telecomunicações, uma das infraestruturas mais críticas da economia digital global.
A decisão foi tomada a 10 de julho, em Genebra, durante o WSIS Forum 2026, encerrando um programa de trabalho de dois anos liderado pela International Telecommunication Union e pelo International Cable Protection Committee.
Os cabos submarinos transportam mais de 99% do tráfego mundial de dados e suportam as comunicações internacionais, serviços financeiros, operações governamentais, comércio digital, educação, saúde e acesso a serviços essenciais. A sua interrupção pode afetar países, empresas e cidadãos, sobretudo em regiões mais dependentes de um número reduzido de ligações internacionais.
O relatório identifica vários riscos para a resiliência desta infraestrutura. Entre os principais estão a exposição a danos físicos, o aumento dos tempos de reparação, a concentração geográfica de cabos e estações de amarração e a dependência excessiva de muitos países de um pequeno número de sistemas. As regiões mais vulneráveis incluem pequenos estados insulares em desenvolvimento, países menos desenvolvidos e territórios ainda mal servidos por conectividade internacional.
As recomendações aprovadas estão organizadas em três áreas principais: acelerar a instalação e reparação de cabos, melhorar a identificação, monitorização e mitigação de riscos e promover maior diversidade geográfica e redundância da conectividade. O objetivo é criar uma referência comum para governos, reguladores, operadores, organizações internacionais e indústria, facilitando políticas públicas mais coerentes e maior cooperação internacional.
A UIT sublinha que a resiliência dos cabos submarinos não é apenas um problema técnico. A reparação de cabos depende de licenças, autorizações, navios especializados, coordenação entre jurisdições, disponibilidade de equipamentos e capacidade de resposta rápida. Em 2025, o International Cable Protection Committee reportou mais de 170 reparações de cabos em todo o mundo, o equivalente a quase quatro falhas por semana.
O relatório propõe o reforço da coordenação entre governos e indústria, a simplificação de processos regulatórios e de licenciamento, a melhoria dos mecanismos de identificação e monitorização de riscos, o aumento da diversidade de rotas e redundância de infraestrutura, a preparação para resposta a incidentes e a integração de considerações climáticas e ambientais no planeamento.
Doreen Bogdan-Martin, secretária-geral da UIT, afirmou que o mundo depende da conectividade e que o trabalho do Advisory Body fornece agora um roteiro prático para manter as redes submarinas fiáveis. Para a responsável, os relatórios refletem um compromisso partilhado entre governos, indústria, organizações internacionais, academia e outros intervenientes para proteger uma infraestrutura crítica para todos.
O relatório tem também uma dimensão portuguesa relevante. Sandra Maximiano, presidente da ANACOM, foi co-presidente do International Advisory Body, juntamente com Bosun Tijani, ministro das Comunicações, Inovação e Economia Digital da Nigéria. A responsável portuguesa sublinhou que o que começou há dois anos como um debate se transformou num movimento global. E que a tarefa agora é converter cooperação em resiliência duradoura para a infraestrutura que mantém o mundo ligado.
Portugal teve um papel central no processo. A Segunda Cimeira Internacional sobre a Resiliência dos Cabos Submarinos decorreu no Porto, em fevereiro deste ano, organizada pela ANACOM em parceria com a UIT e o ICPC. O encontro aprovou a Declaração do Porto e recomendações orientadas para harmonização regulatória, reforço da cooperação e maior proteção das infraestruturas submarinas.
A relevância do tema tem aumentado nos últimos anos devido às falhas, acidentes e incidentes em várias regiões, incluindo episódios no Báltico, Mar Vermelho e Pacífico. Embora a maioria das interrupções resulte de causas naturais ou acidentes, como atividade marítima, ancoragem ou pesca, os cabos submarinos passaram também a ser discutidos como infraestruturas estratégicas expostas a riscos geopolíticos.
Para países como Portugal, a resiliência dos cabos submarinos é particularmente importante. A posição atlântica, as amarrações existentes e a ligação entre Europa, África e Américas dão ao país um papel relevante na conectividade internacional. Essa vantagem só se transforma em ativo estratégico se for acompanhada por redundância, segurança física, capacidade de reparação, coordenação regulatória e integração com data centers, cloud e redes terrestres.
A aprovação das recomendações marca o fim do trabalho formal do Advisory Body, mas abre uma nova fase de implementação. O desafio será transformar o roteiro global em políticas nacionais, procedimentos regulatórios, investimentos em redundância e acordos de cooperação capazes de reduzir tempos de reparação e aumentar a resiliência de uma infraestrutura essencial para a economia digital.
Fabricante do iPhone supera Nvidia numa corrida marcada por estratégias opostas na IA
Aumentando a sua ambição inicial para a futura infraestrutura europeia