A expansão empresarial de agentes e aplicações de IA está a criar uma nova superfície de ataque. Para as organizações portuguesas, o risco concentra-se na utilização de ferramentas sem um controlo formal, na exposição de dados sensíveis e nas ligações entre modelos, aplicações e sistemas internos. É que, segundo o AI Security Report 2026, da Check Point Research, a IA deixou de servir apenas para acelerar ou apoiar operações de cibercrime e começou a executar partes substanciais dos ataques, com intervenção humana reduzida.
O relatório, que documenta a utilização de sistemas de IA na exploração de vulnerabilidades, produção de malware e condução de intrusões em tempo real, não divulga dados desagregados para Portugal. Rui Duro, country manager da Check Point no mercado nacional, considera, contudo, que as empresas devem deixar de tratar os agentes de IA apenas como assistentes digitais e passar a encará-los também como potenciais alvos e pontos de entrada para atacantes.
Segundo a investigação, foram identificadas operações nas quais sistemas de IA produziram milhares de comandos ao longo de várias sessões e assumiram tarefas que, até agora, exigiam uma participação humana mais direta. Num dos casos, um único programador utilizou uma ferramenta comercial de programação assistida por IA para produzir, em menos de uma semana, cerca de 88 mil linhas de código de uma estrutura de comando e controlo denominada VoidLink. O resultado aparentava inicialmente corresponder ao trabalho de uma equipa durante vários meses.
Noutra operação, um atacante utilizou o Claude Code e o GPT-4.1 para comprometer nove entidades governamentais mexicanas. Os modelos executaram mais de 5.300 comandos, a partir de cerca de mil instruções introduzidas pelo operador, de acordo com os dados divulgados pela Check Point.
A utilização empresarial de agentes de IA está, em paralelo, a criar novas vulnerabilidades. Estes sistemas podem consultar documentos, navegar na internet, aceder a aplicações e executar ações através de ferramentas externas, o que aumenta o impacto potencial de uma instrução maliciosa. Entre as técnicas identificadas estão a injeção indireta de prompts, a manipulação de ficheiros de configuração e a introdução de instruções ocultas em páginas, documentos ou convites de calendário. Quando processado por um agente, esse conteúdo pode alterar o comportamento do sistema e levá-lo a divulgar informação ou executar ações não autorizadas.
A Check Point analisou cerca de dez mil servidores baseados no Model Context Protocol, tecnologia que permite ligar modelos de IA a ferramentas e fontes externas de dados. Aproximadamente 40% apresentavam fragilidades de segurança. A investigação detetou também pacotes de código com credenciais ainda ativas, capazes de expor organizações a acessos indevidos.
As deteções de instruções maliciosas mais extensas, associadas sobretudo a ataques através de conteúdos e agentes, aumentaram cerca de cinco vezes entre março e maio de 2026, aproximando-se de 1% dos prompts observados no final desse período.
As organizações analisadas utilizam, em média, dez aplicações de IA por mês, muitas vezes sem processos formais de aprovação ou supervisão. Ao mesmo tempo, a proporção de prompts considerados de elevado risco duplicou num ano, de 2% para 4% das interações avaliadas. Estes pedidos podem incluir dados empresariais confidenciais, informação pessoal ou conteúdos sujeitos a requisitos regulatórios enviados para serviços externos. Entre 87% e 93% das organizações registaram mensalmente pelo menos uma interação de elevado risco com ferramentas de IA generativa.
Os serviços empresariais apresentaram a maior incidência setorial, com 5,91% dos prompts classificados como arriscados, o equivalente a quase uma em cada 17 interações. Telecomunicações, software, comércio grossista e distribuição surgem também entre os setores com maior exposição.
Para a Check Point, os dados não justificam uma interrupção da adoção de IA, mas evidenciam a necessidade de aplicar a estes sistemas os mesmos princípios de governação, proteção de dados, gestão de identidades e controlo de acessos utilizados noutras infraestruturas empresariais. Recomenda ainda que as organizações testem as defesas contra os ataques executados por IA, controlem as permissões atribuídas aos agentes, monitorizem as ferramentas utilizadas pelos colaboradores e adotem mecanismos automatizados de prevenção, deteção e resposta.
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