A Google já formalizou em Portugal o lançamento do Nuvem, um novo cabo submarino transatlântico que vai ligar diretamente os Estados Unidos a Sines, com passagem pelas Bermudas e pelos Açores. A infraestrutura, com cerca de sete mil quilómetros, vem reforçar a posição nacional nas rotas digitais entre a Europa e a América do Norte e responde à procura crescente de capacidade para a cloud, inteligência artificial e serviços digitais. A entrada em funcionamento está prevista para 2027.
O Nuvem ligará Myrtle Beach, na Carolina do Sul, a Sines, com pontos de amarração intermédios nas Bermudas e em São Miguel, nos Açores. O sistema terá 16 pares de fibra ótica, com uma capacidade projetada de cerca de 24 Tbps por par, atingindo uma capacidade agregada estimada de 384 Tbps.
Depois do Equiano, que liga Portugal a África, o Nuvem é o segundo grande cabo submarino internacional da Google com ligação ao território nacional. O projeto será ainda complementado pelo futuro cabo Sol, também da Google, que deverá ligar os Estados Unidos a Espanha, passando pelas Bermudas e pelos Açores, reforçando a redundância e a resiliência das ligações transatlânticas.
Na cerimónia oficial de apresentação, que decorreu em Lisboa, Nigel Bayliff, diretor sénior de redes submarinas globais da Google, enquadrou o Nuvem como o primeiro cabo da tecnológica no Atlântico, sendp parte de uma estratégia mais ampla para construir uma rede global interligada, resiliente e capaz de suportar o crescimento da economia digital. Alcance, fiabilidade e resiliência foram apresentados como os três pilares da estratégia da tecnológica para as infraestruturas submarinas.
O novo cabo foi desenvolvido pela Google em parceria com a MEO e tem como objetivo aumentar a capacidade, reduzir latência e diversificar rotas de conectividade entre continentes. A big tech considera que estas infraestruturas são essenciais para responder ao crescimento dos serviços cloud, da IA, das plataformas digitais e das aplicações empresariais que dependem de transmissão massiva e segura de dados.
A escolha de Portugal, e em particular de Sines, reforça o posicionamento do país como ponto estratégico de entrada da conectividade atlântica na Europa. Pela sua localização geográfica, estabilidade, acesso a energia renovável e crescente ecossistema de centros de dados, Portugal tem vindo a consolidar-se como território relevante para infraestruturas digitais críticas.
O ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, destacou na cerimónia que Portugal se está a afirmar como "porta atlântica da Europa" e ponto de ligação entre Europa, África e Américas. Para o Governo, o Nuvem insere-se numa estratégia mais ampla de atração de investimento em data centers, IA, conectividade e inovação, reforçando também a resiliência digital europeia.
Já a presidente do Conselho de Administração da ANACOM, Sandra Maximiano, sublinhou a importância da cooperação internacional na proteção e resiliência dos cabos submarinos. Estas infraestruturas transportam a esmagadora maioria do tráfego mundial de dados e sustentam serviços essenciais como comunicações, pagamentos, operações empresariais, serviços públicos, hospitais, bancos e plataformas digitais.
A dimensão geopolítica do projeto foi também destacada pelo embaixador dos Estados Unidos em Portugal, John Arrigo, que associou a chegada do Nuvem ao reforço do investimento tecnológico norte-americano no país. Segundo o diplomata, Portugal poderá concentrar mais de 40 mil milhões de dólares de investimento tecnológico dos EUA até 2031, tornando-se um dos principais polos europeus de infraestrutura de IA norte-americana.
O responsável norte-americano defendeu ainda que cada novo cabo de confiança que chega à costa portuguesa reforça a segurança das cadeias digitais e reduz a dependência de rotas ou fornecedores considerados menos fiáveis. Numa fase em que cabos submarinos, cloud, centros de dados e IA passaram a ser infraestruturas críticas, a conectividade deixou de ser apenas uma questão técnica para se tornar também uma dimensão de soberania, segurança e competitividade.
O impacto económico estimado do Nuvem em Portugal ronda os 500 milhões de euros. Para além da ligação direta entre Sines e os Estados Unidos, o projeto prevê também a instalação de uma infraestrutura associada nos Açores, reforçando o papel do arquipélago como nó estratégico das comunicações transatlânticas.
O presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, considerou que a amarração dos cabos da Google pode dar ao arquipélago um papel mais ativo na economia digital, não apenas como ponto de passagem, mas como plataforma de controlo e valorização de novas infraestruturas. O responsável defendeu ainda a necessidade de acelerar a renovação dos cabos submarinos que asseguram as ligações entre o continente, os Açores e a Madeira.
Com o Nuvem, Portugal reforça uma rede que já inclui cabos como o Equiano, o EllaLink e o 2Africa, consolidando Sines como ponto estratégico das ligações digitais internacionais. A chegada de novos cabos, a par do crescimento de projetos de centros de dados e da procura de capacidade para IA, coloca o país numa posição relevante na disputa europeia por infraestruturas digitais críticas.
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