Mais de três quartos dos adultos em Portugal contactaram com pelo menos uma tentativa de burla no último ano, segundo o relatório State of Scams in Portugal 2026, divulgado pela Global Anti-Scam Alliance. O estudo, realizado junto de 1.360 adultos no país, mostra ainda que 9% dos inquiridos sofreram perdas financeiras ou de dados, num contexto em que as burlas se tornam mais frequentes, sofisticadas e difíceis de detetar.
Os dados nacionais acompanham uma tendência europeia mais ampla. O State of Scams Europe 2026, baseado em respostas de 22.260 adultos, conclui que 75% dos europeus encontraram uma tentativa de burla nos últimos 12 meses e que as perdas estimadas ascendem a 57 mil milhões de dólares (cerca de 49 mil milhões de euros). Apesar de 71% dos inquiridos afirmarem estar confiantes na sua capacidade de reconhecer uma fraude, 6% acabaram por perder dinheiro ou dados.
A diferença entre perceção e risco real é uma das principais conclusões do relatório. A maioria dos europeus acredita conseguir identificar burlas, mas uma parte significativa continua a interagir com esquemas cada vez mais bem construídos. Os emails, as chamadas telefónicas e as mensagens escritas mantêm-se como principais portas de entrada, mas os esquemas ganham eficácia através de engenharia social, manipulação psicológica, falsificação de identidade e simulação de entidades legítimas.
Em Portugal, os alertas das autoridades confirmam a pressão crescente deste fenómeno. A GNR registou, só no primeiro trimestre de 2026, cerca de 300 burlas em que os autores se fizeram passar por funcionários de entidades públicas, privadas ou agentes de autoridade. No mesmo período, foram contabilizadas mais de 670 burlas informáticas com obtenção ilícita de dados das vítimas. A força de segurança tem alertado para a profissionalização destes esquemas, que recorrem a técnicas como o spoofing, através das quais os criminosos falsificam a origem da comunicação para fazer parecer que o contacto vem de uma entidade confiável.
O setor financeiro é uma das áreas mais expostas. O Banco de Portugal tem vindo a alertar para esquemas assentes em engenharia social, nos quais os infratores procuram obter informação pessoal, credenciais ou fatores de autenticação, ou induzir as vítimas a autorizar operações indevidas. Entre as tipologias identificadas estão falsas ofertas de emprego, investimentos com promessa de retorno elevado, esquemas com alegadas carteiras de criptoativos, contactos que simulam familiares e fraudes associadas a plataformas digitais de comércio e redes sociais.
A escala europeia do problema mostra que as burlas deixaram de ser casos isolados de fraude oportunista para se afirmarem como uma ameaça sistémica à confiança digital. De acordo com a Global Anti-Scam Alliance, 42% das vítimas foram burladas mais do que uma vez e 64% referem impacto no bem-estar mental. Ainda assim, apenas 3% das pessoas reportam os casos às autoridades, o que limita a capacidade de investigação, partilha de informação e resposta coordenada.
O sub-reporte é um dos pontos críticos. Muitas vítimas contactam primeiro o banco, familiares ou amigos, mas a denúncia formal permanece residual. Esta realidade dificulta a construção de uma visão completa sobre a dimensão do fenómeno e reduz a probabilidade de recuperação de fundos ou identificação de redes criminosas. Defende-se, por isso, uma resposta menos dependente da reação individual da vítima e mais assente em prevenção, deteção precoce, cooperação entre setores e partilha de inteligência.
O relatório foi apresentado no Global Anti-Scam Summit Europe, que decorreu em Lisboa a 9 e 10 de junho, reunindo responsáveis públicos, forças de segurança, reguladores, instituições financeiras, operadores de telecomunicações, plataformas tecnológicas, entidades de cibersegurança e organizações de defesa do consumidor. O encontro teve como tema central a necessidade de parcerias público-privadas para responder a burlas que atravessam plataformas, redes de comunicações, sistemas de pagamento e fronteiras nacionais.
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