Apesar de se manter no top 10 do ranking europeu dos países mais atrativos para o investimento direto estrangeiro (IDE) em 2024, ocupando a 9ª posição, Portugal caiu duas posições. Com a percentagem de investidores que prevê investir no país a baixar de 84% para 60%. Ainda assim, no ano passado registou-se um aumento de 21% no número de novos projetos de IDE. Os dados são do EY Attractiveness Survey Portugal 2025, que avalia a perceção dos investidores estrangeiros sobre a atratividade do país.
De acordo com este relatório, que foi hoje divulgado, o resultado do país enquadra-se numa conjuntura europeia de crescimentos económicos mais lentos, com taxas de juro elevadas e o peso das dívidas públicas ainda expressivo. Assim como num contexto de incerteza macroeconómica e política, com tensões regionais e globais que afetam as cadeias de abastecimento e, como consequência, a confiança dos investidores.
O facto de Portugal se continuar a destacar como um relevante centro de IDE na Europa, mantendo-se no top em termos de volume de projetos e criação de emprego, pode atribuir-se à resiliência demonstrada face aos choques económicos e ao seu posicionamento geográfico estratégico para a captação de IDE com origem fora da Europa.
Ao todo, no ano passado, o país acolheu 196 projetos de IDE, o que representa uma descida de 11%. É que apesar do número de novos projetos a entrar ter excedido o do ano anterior em 21%, o de projetos de expansão desceu 50%. Esta redução pode refletir a maturidade dos investimentos anteriores e uma mudança em direção à consolidação. Numa análise mais ampla, o número de projetos manteve uma taxa de crescimento anual global de 4% nos últimos seis anos.
"Num contexto de forte incerteza global, Portugal voltou a revelar um ambiente favorável à criação e ao desenvolvimento de negócios, e um compromisso com o crescimento sustentável. Entre os que planeiam investir em Portugal este ano, 68% já operam no país, o que reflete a valorização e o compromisso contínuos dos investidores. O EY Attractiveness Survey reforça a confiança na qualidade e nas qualificações da força de trabalho nacional, bem como na competitividade e na abertura a novos mercados e clientes, num país estrategicamente posicionado", diz em comunicado Miguel Farinha, country managing partner do EY Portuguese Cluster.
"Portugal está a consolidar-se como um laboratório vivo para a inovação digital e a transição verde, tirando partido da energia do ecossistema empreendedor, de políticas públicas consistentes e profissionais altamente qualificados. Ao mesmo tempo, a aposta na Inteligência Artificial, uma onda que Portugal está a procurar surfar, reforça o posicionamento internacional", acrescenta Miguel Cardoso Pinto, EY-Parthenon Portugal Leader.
O nível de atratividade é definido no estudo como uma combinação de imagem, confiança do investidor e perceção da capacidade de um país ou região de oferecer os benefícios mais competitivos para o IDE. Para o EY Attractiveness Survey deste ano foram inquiridos 200 investidores de diferentes origens: Europa Ocidental (54%), América do Norte (17%), Europa do Norte (18%), Ásia (6%) e Brasil (5%).
Apesar da redução dos projetos de IDE em Portugal, a criação de emprego ligada ao investimento estrangeiro cresceu, embora ligeiramente (1% em relação ao ano anterior), o que contrasta com a tendência europeia de diminuição expressiva (-16%). Em Portugal, a criação média de emprego por projeto aumentou 3% em 2024.
A perceção dos investidores em relação ao talento português continua reforçada, com um reconhecimento crescente das qualificações e capacidade de inovação, embora persistam preocupações em torno da oferta de competências críticas em setores como a tecnologia, a engenharia e a energia. Sendo que os investidores inquiridos identificaram a dimensão do mercado e o potencial de crescimento como o fator mais decisivo para a escolha do país como destino do investimento (38%), seguido pela disponibilidade e a qualidade da força de trabalho (30%), o que reforça a necessidade de continuar o investimento em educação e formação para assegurar a competitividade.
O trabalho destaca a necessidade de continuar a aposta nas qualificações. Quando questionados sobre a que deve Portugal dar prioridade em relação ao seu mercado de trabalho, no topo da lista aparece a necessidade de aumentar a oferta de competências em áreas estratégicas, como tecnologia, engenharia e energia, seguida pela mobilidade de talento e flexibilização da lei laboral.
Quanto aos setores de investimento, seguindo a tendência de anos anteriores, software e serviços de IT continuam a liderar no IDE, com 137 projetos assegurados em 2024, menos 3 projetos face a 2023, o que, ainda assim, coloca Portugal na 4.ª posição do ranking europeu do setor (que representa 29,1% de todos os projetos de IDE em Portugal, em contraste com 14,6% na Europa). Logo a seguir, mantém-se o setor dos serviços às empresas e serviços profissionais.
Um dos setores que cresce significativamente em IDE é o da indústria transformadora, que no espaço de um ano viu os projetos aumentar 28%, o que pode refletir uma onda de relocalização industrial na Europa, impulsionada pela procura de centros de produção estrategicamente localizados na UE, o que pode reposicionar Portugal nas cadeias de abastecimento globais.
Em termos de regiões, os dados mais recentes mostram que persiste o dinamismo registado nos anos anteriores nas localidades fora de Lisboa e do Porto. Apesar de a região de Lisboa continuar a liderar como destino do IDE, destacava-se o reforço do Centro, em 2º lugar, e do Alentejo, que passa de 7º para 4º lugar em termos de atratividade para investidores internacionais.
Já quando à origem dos investimentos, os resultados reforçam o peso do investimento fora da Europa. Apesar da redução dos projetos, o peso do investimento extra-europeu aumentou consideravelmente, sobretudo impulsionado pelo Brasil, que tem vindo a fortalecer a sua posição, embora ainda não chegue ao top 3, onde estão EUA, Alemanha e França (e que, em conjunto, representam 40,2% do IDE). Ainda assim, Portugal é peça-chave da estratégia de investimento oriundo do Brasil: o país soma 36 projetos de IDE na Europa em 2024, dos quais 16 em Portugal. O país foi responsável por 8,2% do IDE em Portugal, em 2024, acima dos 7% do ano anterior.
Em contraste, os países dentro da Europa têm perdido terreno, o que pode explicar-se pelo abrandamento da economia europeia. Enquanto o IDE de origem europeia passou de um peso de 73% em 2022 para 66% em 2024 (130 projetos), o IDE fora da Europa ascendeu de 27% para 34% (66 projetos) no mesmo período.
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