Portugal integra projeto ibérico para comunicações quânticas seguras

2026-06-11

O Instituto de Telecomunicações integra o projeto IberianQCI, uma iniciativa destinada a interligar as infraestruturas nacionais de comunicações quânticas de Portugal e Espanha, no âmbito da futura rede europeia EuroQCI. O objetivo é criar uma infraestrutura ibérica de comunicações ultrasseguras, preparada para proteger dados sensíveis, serviços essenciais e infraestruturas críticas perante ameaças futuras, incluindo as associadas à computação quântica.
A participação portuguesa é assegurada pelo Grupo de Comunicações Quânticas do Instituto de Telecomunicações e da Universidade de Aveiro, liderado por Armando Nolasco Pinto. O projeto reforça a colaboração científica, tecnológica e industrial entre Portugal e Espanha numa área considerada estratégica para a segurança digital europeia.
O IberianQCI corresponde ao segmento sudoeste europeu da EuroQCI, a European Quantum Communication Infrastructure, iniciativa da União Europeia para desenvolver uma rede pan-europeia de comunicações quânticas seguras. A EuroQCI pretende combinar redes terrestres de fibra ótica com comunicações por satélite, criando uma infraestrutura capaz de proteger comunicações governamentais, dados sensíveis e setores críticos em toda a União Europeia.
No caso ibérico, o projeto irá ligar a infraestrutura quântica portuguesa, a PTQCI, à rede espanhola EuroQCI-Spain. A ligação terrestre deverá estabelecer uma conexão transfronteiriça entre Vigo e Valença do Minho, através de sistemas quânticos seguros suportados por fibra ótica. Esta componente será complementada por ligações espaciais, através de estações óticas terrestres em Espanha e Portugal, interoperáveis com o satélite europeu EAGLE-1 e futuras constelações com capacidades quânticas.
A componente espacial é relevante porque permite ultrapassar limitações de distância associadas às redes terrestres de distribuição quântica de chaves. Segundo a Agência Espacial Europeia, o EAGLE-1 está a preparar o caminho para uma rede ultrassegura baseada em distribuição quântica de chaves, tecnologia que permite detetar tentativas de interceção e reforçar a proteção das comunicações.
O projeto reúne parceiros dos dois países, incluindo a Indra Space, Infraestruturas de Portugal, IP Telecom, Altice Labs, Instituto Superior Técnico, Telefónica, CSIC e Universidade Politécnica de Madrid. Esta composição mostra a natureza transversal da iniciativa, que cruza investigação científica, telecomunicações, infraestruturas, indústria espacial, cibersegurança e redes críticas.
Para Portugal, a integração no IberianQCI dá continuidade ao trabalho desenvolvido no PTQCI, a infraestrutura portuguesa de comunicações quânticas. Este projeto constitui o primeiro segmento terrestre nacional da EuroQCI e representa o passo inicial para integrar Portugal na futura rede europeia. O PTQCI assenta em investigação e demonstrações anteriores em distribuição quântica de chaves, incluindo experiências realizadas em contexto nacional com tecnologia desenvolvida em Portugal.
A relevância destas redes resulta da evolução das ameaças à segurança das comunicações. A computação quântica poderá, no futuro, comprometer alguns dos sistemas criptográficos atualmente usados para proteger dados, transações e comunicações sensíveis. As comunicações quânticas, em particular a distribuição quântica de chaves, procuram responder a esse risco ao permitir formas de troca de chaves criptográficas baseadas em propriedades físicas, com deteção de tentativas de escuta.
A IberianQCI tem também uma dimensão de soberania tecnológica. Ao desenvolver infraestruturas próprias e interoperáveis na Europa, a União Europeia procura reduzir dependências externas em áreas críticas de segurança, comunicações e ciber-resiliência. A ligação Portugal-Espanha será uma das peças dessa arquitetura, preparando a integração da Península Ibérica numa rede europeia mais ampla.
O projeto deverá ter aplicação em domínios onde a confidencialidade e a continuidade das comunicações são essenciais, incluindo administração pública, defesa, energia, banca, saúde, transportes, telecomunicações e serviços digitais críticos. A médio prazo, estas infraestruturas poderão complementar soluções de cibersegurança clássica e criptografia pós-quântica, num modelo híbrido de proteção das comunicações.
A participação do Instituto de Telecomunicações e da Universidade de Aveiro reforça o papel da investigação nacional em tecnologias quânticas aplicadas. Mais do que uma experiência científica, o IberianQCI é um passo de infraestrutura: pretende criar ligações reais, interoperáveis e preparadas para integração europeia, envolvendo entidades públicas, centros de investigação e empresas.
O desafio será transformar esta fase de implementação em capacidade operacional. Para isso, será necessário garantir interoperabilidade técnica, integração com redes existentes, segurança dos nós de confiança, articulação entre componentes terrestres e espaciais e modelos de utilização por entidades públicas e privadas. A maturidade da infraestrutura dependerá também da capacidade de formar talento especializado e de envolver empresas nacionais na cadeia de valor quântica.
Com o IberianQCI, Portugal passa a ocupar uma posição mais visível na construção da infraestrutura europeia de comunicações quânticas. A iniciativa coloca a segurança das comunicações no centro da agenda digital, num momento em que cibersegurança, soberania tecnológica e resiliência das infraestruturas críticas se tornaram prioridades estratégicas para a União Europeia.

 

 


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