O mercado nacional já conta com 93 operações ativas de Shared Service Centers de um total de 88 empresas. E envolvem cerca de 30,7 mil empregos, o que consolida o setor como uma plataforma relevante para operações internacionais de serviços partilhados. Os dados são do Guia Salarial Shared Service Centers 2026, da Adecco Portugal. E confirmam a caracterização da AICEP sobre este segmento de investimento estrangeiro no país.
O crescimento tem sido particularmente expressivo desde 2015. Foram criados 58 novos centros desde esse ano, o que representa 62% do total de operações atualmente existentes. A AICEP assinala que os primeiros centros de serviços partilhados surgiram no país na década de 1990, mas que a expansão acelerou sobretudo a partir da última década.
O setor é fortemente marcado pelo investimento externo. Mais de 90% dos centros são de propriedade estrangeira e quase 90% prestam serviços a nível internacional, o que reforça o contributo destas operações para as exportações de serviços de maior valor acrescentado. Entre os principais países de origem estão a França, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido e Suíça.
A atratividade de Portugal resulta de uma combinação de fatores: disponibilidade de talento qualificado, competências linguísticas, fuso horário adequado para servir diferentes geografias e boas ligações aéreas com mercados europeus e norte-americanos. Segundo a AICEP, os centros instalados em Portugal servem regiões como Europa, América do Norte, América do Sul e Norte de África.
A média de quatro línguas por centro ilustra o posicionamento do país como plataforma multilingue para operações globais. A AICEP indica ainda que 75% dos centros operam em vários idiomas e que mais de 80% dos colaboradores têm formação superior, fatores que ajudam a explicar a evolução do setor para funções mais qualificadas.
As competências linguísticas continuam a ter impacto direto na valorização salarial. Segundo o guia da Adecco Portugal, perfis com domínio de línguas menos disponíveis no mercado, como alemão, holandês ou línguas nórdicas, apresentam intervalos salariais superiores aos profissionais com inglês ou espanhol.
O estudo aponta também para uma mudança na natureza das operações instaladas em Portugal. Os centros de serviços partilhados deixaram de estar concentrados apenas em funções administrativas ou de atendimento e passaram a integrar áreas como finanças, recursos humanos, compras, cadeia de fornecimento, tecnologias de informação, dados, conformidade, apoio jurídico, analytics e suporte à tomada de decisão.
A digitalização está a acelerar esta evolução. A AICEP refere que muitos centros já implementam, ou estão a implementar, soluções de robótica, automação de processos e inteligência artificial para automatizar atividades transacionais e aumentar produtividade. A Adecco identifica também tendências como omnicanalidade, personalização, autoatendimento, chatbots, IA e machine learning nos modelos operacionais dos centros.
Lisboa mantém peso relevante no setor, mas o Porto tem ganho importância como localização para operações internacionais e estruturas com atuação multigeográfica. O estudo da Adecco assinala que funções de liderança em centros de maior dimensão, como Head of SSC/GBS, podem ultrapassar 100 mil euros anuais, refletindo a evolução destes centros de estruturas operacionais para hubs globais com maior responsabilidade estratégica.
Entre os maiores empregadores identificados pela AICEP estão BNP Paribas Securities Services, Natixis, Siemens, Nokia, Revolut, Airbus e Adidas. A agência destaca ainda projetos recentes como o centro global de serviços da Airbus em Lisboa, com cerca de mil profissionais, e a operação da Natixis no Porto, que emprega cerca de 2,2 mil pessoas.
Apesar do crescimento, a retenção de talento surge como o principal desafio para 2026. A Adecco Portugal alerta que a procura supera a oferta disponível e que a rotatividade, sobretudo entre profissionais mais jovens, pode afetar produtividade e custos operacionais.