As redes de comunicações e as soluções por satélite estão a assumir um papel crescente na resiliência das infraestruturas digitais em Portugal. A ANACOM refere que os dados disponíveis mostram uma conectividade digital robusta no país, mas ainda marcada por desafios relevantes em matéria de continuidade de serviço, redundância e capacidade de resposta a falhas.
A mensagem ganha particular importância depois dos impactos provocados pelas tempestades do início do ano, que evidenciaram a vulnerabilidade das redes fixas, sobretudo em zonas onde as infraestruturas dependem de traçados aéreos e de acessos difíceis. Quatro meses depois, continuavam a existir cerca de 7.500 clientes sem serviços fixos de telecomunicações, apesar de as comunicações móveis estarem repostas, segundo dados da ANACOM citados pelo ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz.
O caso confirmou uma diferença estrutural entre redes móveis e fixas em cenários extremos. Enquanto a rede móvel foi recuperada de forma mais rápida, a reposição da rede fixa tem sido mais demorada, devido à necessidade de reconstruir partes significativas da infraestrutura, muitas vezes em locais de acesso difícil. A depressão Kristin provocou, segundo a ANACOM, uma destruição massiva de infraestruturas, em especial cabos aéreos de fibra ótica e torres de suporte de antenas, tendo afetado mais de 200 mil acessos fixos e 300 mil utilizadores da rede móvel.
Neste contexto, o satélite surge como uma camada complementar de resiliência. O regulador tem vindo a destacar o valor das comunicações via satélite em serviços de emergência, segurança e proteção civil, sobretudo em situações de falha das redes terrestres, catástrofes naturais ou regiões onde as infraestruturas são vulneráveis ou inexistentes.
As comunicações por satélite podem funcionar como alternativa em cenários críticos, permitindo manter ligações entre equipas de intervenção, forças de segurança, bombeiros, socorristas e entidades de proteção civil. A tecnologia pode reforçar a coordenação operacional, a partilha de informação em tempo real e a resposta às populações afetadas por sismos, incêndios florestais, inundações ou tempestades severas.
A relevância do satélite já tinha sido sinalizada pela ANACOM após os incêndios florestais de 2017, quando foram identificadas 27 medidas para proteger as redes de comunicações. Entre essas medidas estavam precisamente ligações via satélite como alternativa essencial para manter comunicações operacionais em contextos de emergência.
Também no plano regulatório e técnico, a discussão está a evoluir. Na Europa, continuam a ser analisadas regras para serviços de satélite direto para dispositivos, conhecidos como Direct to Device ou D2D, que permitirão comunicações sem antenas adicionais. Em Portugal, os serviços de internet fixa via satélite ainda têm utilização residual, representando menos de 1% dos acessos.
A leitura dos dados e dos episódios recentes aponta para uma conclusão operacional: Portugal tem níveis elevados de conectividade, mas a próxima fase exige maior investimento em redundância, capacidade de recuperação e integração de soluções alternativas. O satélite não substitui as redes terrestres, mas pode tornar-se uma peça crítica do plano de continuidade quando essas redes falham.
Pacotes com quatro e cinco serviços reforçam liderança nas comunicações