As comunicações nacionais enfrentam um momento crítico, marcado pela pressão sobre receitas, pela necessidade de novos investimentos e pela indefinição sobre a renovação do espectro. E se o país tem redes de qualidade, a sustentabilidade futura depende das mudanças que forem feitas nas regras do mercado.O movimento de consolidação, que já começou na Europa, é visto como inevitável. E urgente.
Para o CEO da NOS, Miguel Almeida, a Europa cometeu erros ao promover mercados com quatro operadores em países onde a escala não permite sustentar investimento intensivo. Portugal segue em contraciclo face a movimentos europeus que estão a surgir em países como França e Espanha, onde a consolidação está a avançar. Na sua leitura, o mercado português terá inevitavelmente de se consolidar, para recuperar equilíbrio entre concorrência, inovação e capacidade de investimento.
A CEO da MEO, Ana Figueiredo alinhou no diagnóstico, defendendo que a consolidação deve ser vista como instrumento para criar escala e não como "saída de emergência". É que o setor precisa de escala para investir em novas tecnologias, reforçar infraestruturas críticas e manter Portugal na linha da frente da conectividade. Sem escala e sem previsibilidade, será difícil financiar os próximos ciclos de inovação, advertiu.
Luís Lopes, CEO da Vodafone Portugal, também apontou para a necessidade de decisões estruturantes nos próximos anos. O futuro digital do país depende de redes de telecomunicações de classe mundial, mas alertou que os acionistas internacionais olham hoje para Portugal com menor apetite de investimento, depois de anos de incerteza regulatória e perda de atratividade do mercado.
A renovação do espectro de 5G foi apresentada como o dossiê mais urgente. As licenças que terminam em 2027 continuam sem decisão fechada, criando incerteza para investimentos de longo prazo. Os operadores defenderam renovações longas, estáveis e alinhadas com a discussão europeia, que aponta para períodos mais extensos e maior previsibilidade. Para o setor, não faz sentido exigir investimento em resiliência, 5G, capacidade e inovação quando persistem dúvidas sobre os ativos essenciais à operação.
Neste cenário, as críticas à regulação foram inevitáveis. Todos contestaram a leitura da ANACOM sobre a robustez do setor, argumentando que os indicadores financeiros revelam uma realidade mais frágil. Luís Lopes referiu que as receitas de retalho em 2025 voltaram a cair e estão ao nível de 2013, apesar do aumento do número de clientes de banda larga e móvel. Para os operadores, há mais clientes, mais tráfego e mais exigência, mas menos capacidade financeira para investir.
Miguel Almeida foi particularmente crítico no que disse ser a lógica regulatória centrada nos preços baixos. Na sua leitura, Portugal privilegiou no passado benefícios de curto prazo para o consumidor, sacrificando investimento, inovação, qualidade e resiliência de longo prazo. Para o gestor, a regulação deve passar a valorizar dimensões dinâmicas da concorrência, como investimento, capacidade tecnológica e sustentabilidade financeira.
A soberania digital europeia foi outro tema abordado, mas com reservas. Os operadores reconhecem que pode representar uma oportunidade para empresas europeias com infraestruturas próprias, competências em cloud, cibersegurança e serviços digitais. Contudo, alertaram que, se a soberania vier associada a mais obrigações, restrições, custos e proibições tecnológicas, poderá agravar a fragilidade do setor. O Cybersecurity Act foi apontado como exemplo de risco regulatório, nomeadamente se resultar em imposições com impacto elevado nos custos de substituição de fornecedores.
A capacidade de investimento é hoje o principal teste ao futuro. Ana Figueiredo recordou que a MEO investiu entre 400 e 500 milhões de euros por ano ao longo da última década, totalizando cerca de cinco mil milhões de euros em infraestruturas. Mas deixou claro que este investimento não deve ser tomado como garantido. Terá sim de ser protegido e incentivado por decisões políticas e regulatórias coerentes.
Já a NOS está a procurar crescimento em áreas adjacentes, como serviços de IT, precisamente porque o negócio tradicional de telecomunicações não garante hoje retorno suficiente. Miguel Almeida diz que a aquisição da Claranet é um exemplo dessa diversificação. Para o gestor, os operadores terão de se tornar plataformas mais abrangentes, porque a conectividade isolada já não é suficiente para sustentar o crescimento.
Mas, apesar das críticas, os operadores mantiveram uma visão de oportunidade. A IA, a cloud, a cibersegurança, o edge computing, os serviços digitais e a automação das redes podem transformar o setor. Ana Figueiredo antecipa operadores mais tecnológicos, com redes quase autónomas, plataformas abertas a developers e capacidade de gerir clientes de forma mais proativa. Miguel Almeida destacou o potencial transformador da IA nos modelos operacionais. E Luís Lopes apontou duas trajetórias possíveis: um setor low cost, com margens esmagadas e menor qualidade, ou um setor capaz de investir, inovar e suportar a próxima geração tecnológica.
A tempestade Cristina e o apagão também serviram para discutir a resiliência. Os operadores agradeceram o trabalho das equipas no terreno e sublinharam a complexidade da reposição de redes de fibra e infraestruturas móveis, sobretudo em zonas rurais e dispersas. A destruição de ativos mostrou que a recuperação não é imediata nem comparável a outros setores: reconstruir fibra, postes e torres exige tempo, recursos especializados e coordenação entre operadores.
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