A utilização de ferramentas de inteligência artificial generativa em Portugal cresceu de forma acentuada nos últimos dois anos: 70% dos adultos já recorreu a este tipo de tecnologia. Sendo que a adoção é mais expressiva entre as gerações mais jovens. Em 2023, essa percentagem era de 41%, o que representa um aumento de 71%. Os dados constam do estudo Digital Consumer Trends 2025: Portugal edition, da Deloitte, que analisa a evolução dos comportamentos digitais dos consumidores portugueses.
Segundo o estudo, 85% dos inquiridos da Geração Z já utilizaram ferramentas de GenAI, enquanto entre os boomers a percentagem desce para 44%. O ChatGPT surge como a ferramenta mais popular: é utilizado por 61% dos inquiridos e reconhecido por 76% da população adulta.
Pedro Tavares, partner e líder da indústria de Tecnologia, Media e Telecomunicações na Deloitte, considera que os dados refletem uma "transformação profunda nos comportamentos digitais", impulsionada pelo crescimento da GenAI e pela facilidade de acesso a estas tecnologias através do smartphone. Sublinha que, desde a última edição do estudo, realizada há dois anos, a adoção de tecnologias emergentes aumentou sobretudo entre as gerações mais novas.
O smartphone mantém-se como o dispositivo dominante no quotidiano digital dos portugueses, com uma taxa de utilização diária de 99%. No entanto, o estudo identifica uma redução na frequência de substituição dos equipamentos. Apenas 41% dos inquiridos trocaram de smartphone no último ano e meio, abaixo dos 45% registados em 2023. Ainda assim, 23% admitem comprar um novo equipamento nos próximos 12 meses. Entre as marcas, a Samsung lidera as preferências dos consumidores portugueses, com 33%, seguida pela Apple (26%) e pela Xiaomi (25%).
O estudo revela também uma evolução gradual na adoção de equipamentos de entretenimento e casa inteligente. As televisões inteligentes estão presentes em 64% dos consumidores inquiridos, as consolas de jogos em 38% e os sistemas de som sem assistente em 27%. No segmento da casa inteligente, os robôs aspiradores são os dispositivos mais utilizados, com 26%, seguidos pelas câmaras de segurança interiores, com 19%, e pelos sistemas de iluminação inteligente, com 14%. Equipamentos mais avançados, como fechaduras inteligentes, detetores de fumo ou eletrodomésticos conectados, continuam com níveis de adoção reduzidos, entre 3% e 7%.
Nos serviços de vídeo por subscrição, a Deloitte identifica sinais de estabilização e maior racionalização por parte dos consumidores. A Netflix continua a ser a plataforma com maior penetração, acessível a 42% dos consumidores, embora abaixo dos 53% registados em 2023. O Prime Video e a Disney+ surgem ambos com 19%, enquanto a HBO Max chega a 16%.
Apesar da estabilidade geral no acesso a serviços SVOD, os dados apontam para uma maior seletividade nas subscrições digitais. No último ano, 25% dos consumidores aderiram a um novo serviço ou voltaram a subscrever uma plataforma anteriormente cancelada, enquanto 15% cancelaram uma subscrição. O custo e o subaproveitamento continuam entre os principais motivos de cancelamento. Em particular, 25% dos consumidores referem que cancelaram por não utilizarem suficientemente o serviço, face a 17% em 2023, o que sugere sinais de fadiga e saturação no consumo de plataformas digitais.
O relatório aponta ainda para uma tendência de "des-digitalização" em determinados comportamentos. Mais de metade dos consumidores portugueses - 56% - afirma ter desativado todas as notificações das aplicações no telemóvel. Além disso, 31% definiram limites de tempo de ecrã e 21% decidiram, de forma deliberada, deixar de utilizar um dispositivo digital.
Entre a Geração Z, a relação com as redes sociais revela maior rotatividade. No último ano, 31% dos jovens aderiram a uma nova aplicação de redes sociais, mas 28% eliminaram uma app. Considerando todas as gerações, 18% dos consumidores eliminaram uma aplicação de redes sociais. Os principais motivos apontados foram terem deixado de a usar, referido por 36%, ou considerarem que o conteúdo se tornou pouco interessante, mencionado por 25%.
Na área das telecomunicações, o estudo indica que 45% dos inquiridos têm internet em casa, mas 31% dizem não saber qual a velocidade contratada ou disponibilizada. No acesso móvel, 61% dos portugueses afirmam que a qualidade da ligação se manteve inalterada nos últimos 12 meses, enquanto 69% dizem conseguir aceder de forma consistente à rede 5G. Melhor cobertura e maior velocidade surgem como os principais fatores que poderiam levar os consumidores a considerar uma mudança de operador.
A relação entre crianças, smartphones e redes sociais é outro dos temas analisados. Mais de metade dos portugueses, 56%, considera adequado que uma criança tenha o primeiro smartphone entre os 12 e os 15 anos. No entanto, quando a questão é o acesso às redes sociais, os consumidores revelam maior prudência. Apenas 22% defendem que esse acesso possa começar antes dos 13 anos, enquanto 28% apontam para os 14 ou 15 anos e 43% consideram apropriado apenas a partir dos 16 anos.
Para a Deloitte, esta diferença sugere que os consumidores distinguem entre a posse de um dispositivo e o acesso a ambientes digitais sociais, que são percecionados como mais sensíveis. O estudo mostra, assim, uma dupla tendência no mercado português: por um lado, adoção rápida de tecnologias emergentes como a GenAI; por outro, maior preocupação com controlo, exposição digital, uso excessivo e gestão das subscrições.