A maioria das instituições de ensino superior já adotou ferramentas de inteligência artificial generativa, sobretudo no ensino. Mas a capacidade institucional para regular e integrar estas tecnologias continua atrasada. O diagnóstico é de um estudo apresentado pelo Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior (CNIPES).
O estudo, baseado em respostas de 68 instituições e na análise de práticas internacionais, conclui que a adoção da IA está a avançar mais rapidamente do que os mecanismos de governação necessários para a enquadrar. Mais de metade das instituições (52,9%) já utiliza IA no ensino, enquanto 42,6% recorre a estas ferramentas na investigação. Em contraste, apenas 26,5% reporta utilização na gestão, evidenciando uma adoção desigual entre áreas.
O relatório sublinha a ausência generalizada de políticas estruturadas, bem como de rotinas de auditoria, validação e responsabilização. Em muitos casos, a utilização da IA ocorre de forma fragmentada, limitada a disciplinas ou projetos específicos, sem integração em estratégias institucionais mais amplas.
A nível interno, foram também identificadas assimetrias significativas. Algumas instituições investem na formação de docentes, mas não replicam esse esforço junto dos estudantes, o que levanta questões sobre literacia digital e uso responsável destas ferramentas. O CNIPES alerta ainda para o risco de erro académico e institucional associado ao uso de modelos generativos sem validação humana.
A necessidade de supervisão é destacada como elemento central. O relatório defende que a utilização de IA deve ser transparente, com indicação explícita da sua contribuição em trabalhos académicos ou administrativos, e acompanhada por mecanismos claros de responsabilização.
Este cenário não é exclusivo de Portugal. Estudos internacionais apontam para tendências semelhantes. Dados da UNESCO e da OECD indicam que a adoção de IA no ensino superior tem crescido rapidamente, mas frequentemente sem enquadramento normativo consolidado, o que levanta desafios éticos, pedagógicos e operacionais.
O CNIPES recomenda a criação de uma plataforma nacional para apoiar a partilha de práticas, recursos e evidência científica, com o objetivo de promover uma abordagem mais coerente e comparável entre instituições. A proposta inclui também o reforço da integração da IA nos currículos, revisão de métodos de avaliação e definição de orientações claras para o seu uso ético.
As conclusões serão agora discutidas com reitores e responsáveis institucionais, devendo dar origem a um conjunto de recomendações a apresentar ao Governo. O objetivo passa por alinhar a adoção tecnológica com modelos de governação mais robustos, num contexto em que a inteligência artificial começa a assumir um papel estrutural no ensino, investigação e gestão académica.